Quanto custa um ministério: salários, gabinetes e as contas dos 18 ministérios
Há duas despesas em cada ministério: o salário de quem governa e o custo de quem o assessora. Juntas, as duas somam 4,21 M€ por mês. Os gabinetes valem 12,5 vezes mais do que os vencimentos dos 59 membros do Governo — e o ministério mais caro custa 4,5 vezes o mais barato.
Com os despachos do Diário da República e a lei que fixa os salários dos cargos políticos, este artigo abre as contas dos 18 ministérios: quem ganha o quê, quantas pessoas trabalham em cada gabinete e o que sobra para cada ministro depois de pagar à sua própria estrutura.
O Governo em números
Dois andares de despesa
Um ministério custa duas coisas diferentes. A primeira é o titular: um ministro, os seus secretários de Estado e o salário que a lei lhes fixa. A segunda é o gabinete: as dezenas de pessoas nomeadas por despacho para o assessorar — chefes de gabinete, adjuntos, técnicos especialistas, secretárias pessoais e motoristas.
Este artigo mede os dois. Nos 18 ministérios do XXIV Governo há 1 215 nomeações em gabinetes, que custam 3,90 M€ por mês em remunerações brutas — 54,64 M€ por ano se se contarem os 14 pagamentos. Para comparar: os 59 membros do Governo custam, em vencimentos, 311 224 € por mês.
Os dados vêm dos despachos de nomeação publicados no Diário da República e compilados na ficha de cada membro do Governo; os valores são o rendimento bruto mensal associado a cada nomeação.
Quanto ganha quem governa (2026)
| Cargo | % do PR | Vencimento (€) | Representação (€) | Total mês (€) | Bruto anual (€) |
|---|---|---|---|---|---|
| Presidente da República | 100% | 8 550 | — | 8 550 | 119 701 |
| Primeiro-Ministro | 75% | 6 413 | 2 565 | 8 978 | 120 556 |
| Ministro | 65% | 5 558 | 2 223 | 7 781 | 104 482 |
| Secretário de Estado | 60% | 5 130 | 1 796 | 6 926 | 93 367 |
O país dos 65%
Um ministro ganha 5 558 € por mês de vencimento base, mais 2 223 € de despesas de representação — 7 781 € por mês e 104 482 € por ano, contando os 14 vencimentos e as 12 mensalidades de representação. É 65% do que ganha o Presidente da República e 87% do que ganha o primeiro-ministro (8 978 € por mês).
Um secretário de Estado fica nos 5 130 € de vencimento e 6 926 € com representação. Estes valores não são negociados: resultam de uma lei de 1985 e de uma indexação automática ao salário do chefe de Estado, o que explica porque é que a folha salarial do topo do Governo é, ao euro, previsível.
O custo mensal de cada ministério
Soma das remunerações brutas mensais de todas as nomeações nos gabinetes do ministro e dos seus secretários de Estado.
- Negócios Estrangeiros490 mil €
153 pessoas · média de 3 200 €
- Finanças359 mil €
114 pessoas · média de 3 145 €
- Ambiente e Energia305 mil €
98 pessoas · média de 3 276 €
- Justiça265 mil €
83 pessoas · média de 3 188 €
- Infraestruturas e Habitação257 mil €
85 pessoas · média de 3 384 €
- Economia241 mil €
77 pessoas · média de 3 253 €
- Educação, Ciência e Inovação230 mil €
74 pessoas · média de 3 108 €
- Agricultura e Pescas208 mil €
63 pessoas · média de 3 363 €
- Coesão Territorial200 mil €
58 pessoas · média de 3 455 €
- Trabalho, Solidariedade e Segurança Social195 mil €
62 pessoas · média de 3 153 €
- Defesa Nacional183 mil €
56 pessoas · média de 3 321 €
- Saúde165 mil €
52 pessoas · média de 3 236 €
- Administração Interna150 mil €
51 pessoas · média de 3 068 €
- Juventude e Modernização141 mil €
41 pessoas · média de 3 528 €
- Presidência141 mil €
42 pessoas · média de 3 350 €
- Primeiro-Ministro136 mil €
35 pessoas · média de 3 877 €
- Assuntos Parlamentares129 mil €
39 pessoas · média de 3 395 €
- Cultura108 mil €
32 pessoas · média de 3 381 €
Diário da República (despachos de nomeação), fichas do Governo no Sabemos Studio · composição de 5 de junho de 2025.
Negócios Estrangeiros custa 4,5 vezes a Cultura
O ministério mais caro é Negócios Estrangeiros: 489 673 € por mês em 153 nomeações — o gabinete do ministro Paulo Rangel e os de três secretários de Estado. Segue-se Finanças (358 535 €, 114 pessoas) e Ambiente e Energia (304 677 €, 98).
No fundo da tabela está Cultura, com 108 192 € e 32 pessoas — quase 4,5 vezes menos do que os Negócios Estrangeiros.
A dimensão do gabinete segue a dimensão da pasta, não o número de secretários de Estado: a Economia tem três secretários e um gabinete de 77 pessoas; a Presidência tem dois e 42.
A média por pessoa quase não muda
Do mínimo (Administração Interna, 3 068 €) ao máximo (Primeiro-Ministro, 3 877 €), a diferença é de 26,4%.
- Primeiro-Ministro4 mil €
35 registos com valor
- Juventude e Modernização4 mil €
40 registos com valor
- Coesão Territorial3 mil €
58 registos com valor
- Assuntos Parlamentares3 mil €
38 registos com valor
- Infraestruturas e Habitação3 mil €
76 registos com valor
- Cultura3 mil €
32 registos com valor
- Agricultura e Pescas3 mil €
62 registos com valor
- Presidência3 mil €
42 registos com valor
- Defesa Nacional3 mil €
55 registos com valor
- Ambiente e Energia3 mil €
93 registos com valor
- Economia3 mil €
74 registos com valor
- Saúde3 mil €
51 registos com valor
- Negócios Estrangeiros3 mil €
153 registos com valor
- Justiça3 mil €
83 registos com valor
- Trabalho, Solidariedade e Segurança Social3 mil €
62 registos com valor
- Finanças3 mil €
114 registos com valor
- Educação, Ciência e Inovação3 mil €
74 registos com valor
- Administração Interna3 mil €
49 registos com valor
Média das remunerações brutas mensais declaradas, por nomeação.
O mesmo dinheiro, distribuído de outra forma
O que muda entre ministérios é o número de pessoas, não o que cada uma ganha. A média por nomeação vai de 3 068 € (Administração Interna) a 3 877 € (Primeiro-Ministro) — uma diferença de apenas 26,4%.
Quase todos os gabinetes têm um chefe de gabinete a ganhar 5 144 € — praticamente o vencimento de um secretário de Estado (5 130 € em 2026). A única exceção é o gabinete do primeiro-ministro, onde o chefe aufere 6 147 €. A estrutura é rígida: quem entra para um gabinete entra numa grelha, não numa negociação.
Os 18 ministérios, do mais caro ao mais barato
| Ministério | Titular | Pessoas | Custo/mês (€) | Média (€) | × governantes |
|---|---|---|---|---|---|
| Negócios Estrangeiros | Paulo Rangel | 153 | 489 673 | 3 200 | 23,4× |
| Finanças | Joaquim Miranda Sarmento | 114 | 358 535 | 3 145 | 13,7× |
| Ambiente e Energia | Maria da Graça Carvalho | 98 | 304 677 | 3 276 | 19,3× |
| Justiça | Rita Alarcão Júdice | 83 | 264 581 | 3 188 | 16,7× |
| Infraestruturas e Habitação | Miguel Pinto Luz | 85 | 257 181 | 3 384 | 12,3× |
| Economia | Pedro Reis | 77 | 240 717 | 3 253 | 11,5× |
| Educação, Ciência e Inovação | Fernando Alexandre | 74 | 230 011 | 3 108 | 11,0× |
| Agricultura e Pescas | José Manuel Fernandes | 63 | 208 497 | 3 363 | 10,0× |
| Coesão Territorial | Manuel Castro Almeida | 58 | 200 385 | 3 455 | 12,7× |
| Trabalho, Solidariedade e Segurança Social | Maria do Rosário Palma Ramalho | 62 | 195 466 | 3 153 | 9,3× |
| Defesa Nacional | Nuno Melo | 56 | 182 659 | 3 321 | 11,5× |
| Saúde | Ana Paula Martins | 52 | 165 042 | 3 236 | 10,4× |
| Administração Interna | Margarida Blasco | 51 | 150 340 | 3 068 | 9,5× |
| Juventude e Modernização | Margarida Balseiro Lopes | 41 | 141 135 | 3 528 | 8,9× |
| Presidência | António Leitão Amaro | 42 | 140 701 | 3 350 | 8,9× |
| Primeiro-Ministro | Luís Montenegro | 35 | 135 707 | 3 877 | 21,2× |
| Assuntos Parlamentares | Pedro Duarte | 39 | 129 002 | 3 395 | 8,2× |
| Cultura | Dalila Rodrigues | 32 | 108 192 | 3 381 | 10,1× |
Por cada euro do ministro, o gabinete custa 12
No conjunto, os gabinetes custam 12,5 vezes o que custam os salários dos governantes que assessoram. O rácio mais alto é o de Negócios Estrangeiros (23,4×): cada euro pago ao ministro e aos seus três secretários corresponde a 23 euros de gabinete. O mais baixo é o de Assuntos Parlamentares (8,2×), o ministério com mais governantes por pessoa de gabinete — 3 membros, 39 nomeações.
A leitura política é simples: o custo do Governo não está nos salários dos ministros, que são baixos para o padrão do topo da Administração Pública, mas na estrutura que cada um monta à sua volta.
Quem trabalha nos gabinetes (nº de nomeações)
Funções normalizadas a partir da designação de cada despacho (masculino/feminino agregados).
- Técnico especialista404
média de 3 791 €
- Adjunto213
média de 3 936 €
- Secretário pessoal161
média de 2 527 €
- Motorista154
média de 2 298 €
- Apoio técnico-administrativo131
média de 1 897 €
- Chefe de gabinete70
média de 5 087 €
- Pessoal auxiliar42
média de 1 205 €
- Coordenador do apoio31
média de 2 337 €
- Assessor9
média de 4 929 €
Diário da República · 1 215 nomeações em gabinetes do Governo.
A grelha dos gabinetes
| Função | Nomeações | Bruto total (€) | Média (€) | Máximo (€) |
|---|---|---|---|---|
| Técnico especialista | 404 | 1 531 537 | 3 791 | 4 770 |
| Adjunto | 213 | 838 286 | 3 936 | 4 302 |
| Secretário pessoal | 161 | 406 823 | 2 527 | 2 610 |
| Motorista | 154 | 353 884 | 2 298 | 2 344 |
| Apoio técnico-administrativo | 131 | 248 460 | 1 897 | 1 934 |
| Chefe de gabinete | 70 | 356 071 | 5 087 | 6 147 |
| Pessoal auxiliar | 42 | 50 624 | 1 205 | 1 235 |
| Coordenador do apoio | 31 | 72 461 | 2 337 | 2 337 |
| Assessor | 9 | 44 359 | 4 929 | 5 128 |
Técnicos, adjuntos e motoristas
A função mais comum é técnico especialista (404 nomeações), seguida de adjunto (213) e secretário pessoal (161). Os motoristas são 154 e há 70 chefes de gabinete para 59 membros do Governo.
As médias por função sobem com a responsabilidade: 1 205 € para pessoal auxiliar e 5 087 € para chefes de gabinete. Dentro de cada função, a variação entre ministérios é mínima — é a mesma grelha aplicada a todos os gabinetes.
O que está — e o que não está — nestes números. A base é a composição do XXIV Governo registada a 5 de junho de 2025: 59 membros (um primeiro-ministro, 17 ministros e 41 secretários de Estado) e 1 215 nomeações em gabinetes, das quais 1 191 têm valor de remuneração declarado (as restantes não entram nas médias). Os valores são rendimento bruto mensal por nomeação, tal como constam dos despachos publicados no Diário da República; não incluem subsídios de refeição, ajudas de custo, deslocações, seguros ou contribuições da entidade empregadora.
Vencimentos dos governantes. Calculados a partir da Lei n.º 4/85 e do vencimento do Presidente da República para 2026 (8 550,10 €, DL n.º 29-A/2026): primeiro-ministro 75%, ministros 65%, secretários de Estado 60%; despesas de representação de 40%, 40% e 35%. O bruto anual usa 14 vencimentos e 12 mensalidades de representação, como manda o estatuto. O custo anual dos gabinetes (54,64 M€) assume também 14 pagamentos, para ser comparável.
Não estão aqui os gabinetes dos grupos parlamentares, os assessores dos partidos pagos pelo Orçamento do Estado, nem os encargos com instalações, viaturas e comunicações — que acresceriam a estes valores.
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