Quanto custa a IA por departamento — e o que isso faz à folha de salários

Sabemos Studio05/11/202619 min de leituraAnálises

Um simulador com os preços reais dos modelos, o custo por tarefa e a comparação com o custo do trabalho em Portugal: a IA é barata, o trabalho é que é caro — e é isso que está a mudar o mercado.

Uma empresa portuguesa de 50 pessoas que meta IA em metade dos processos gasta entre 2 e 186 euros por mês em tokens, dependendo do modelo. A folha de salários custa 130 mil euros por mês. É esta desproporção — de três ordens de grandeza — que explica porque é que a IA está a entrar nas empresas pela porta dos custos variáveis e a sair pela porta do recrutamento.

Este artigo tem um simulador. Põe lá os teus números e vê a conta.

As quatro âncoras

por tarefa0,4 a 4,4 ¢2.000 tokens de entrada, 600 de saída
salário bruto médio1.835 €INE, 2.º trimestre de 2026
custo por hora19,4 €Eurostat, 2025
TSU patronal23,75%sobre o salário bruto

O que muda quando se paga por token

Os modelos não se pagam por licença: pagam-se por milhão de tokens — a unidade em que o texto é cortado antes de ser processado. Um milhão de tokens são cerca de 750 mil palavras em português.

A conta que interessa a uma empresa é mais pequena: quantos tokens consome uma tarefa e quanto custa essa tarefa. Com uma tarefa típica — ler um documento de 1.500 palavras e responder com 150 —, o consumo ronda os 2.000 tokens de entrada e 600 de saída. A custos de hoje, custa 0,04 cêntimos no modelo mais barato e 4,4 cêntimos no mais caro.

Uma empresa portuguesa de 50 pessoas que meta IA em metade dos seus processos não gasta «milhares por mês» nem «uns trocos»: gasta entre 2 e 186 euros por mês em tokens, dependendo do modelo. O que pesa — e continua a pesar — é a folha de salários. Este simulador cruza as duas contas, departamento a departamento.

Custo por tarefa0,4 a 4,4 cêntimos2.000 tokens de entrada + 600 de saída
Salário médio bruto1.835 €INE, 2.º trimestre de 2026
Custo do trabalho19,4 €/horaEurostat, 2025
Modelos no mercado13de 0,10 a 10 dólares por milhão

O que muda quando se paga por token

Os modelos de linguagem não se pagam por licença: pagam-se por milhão de tokens — a unidade em que o texto é cortado antes de ser processado. Um milhão de tokens são cerca de 750 mil palavras em português. A conta que interessa a uma empresa é mais pequena: quantos tokens consome uma tarefa e quanto custa essa tarefa.

Com uma tarefa típica — ler um email ou um documento de 1.500 palavras e responder com 150 —, o consumo ronda os 2.000 tokens de entrada e 600 de saída. A custos de hoje, essa tarefa custa 0,04 cêntimos no modelo mais barato e 4,4 cêntimos no mais caro. É a diferença entre mandar um email e imprimir uma página a cores.

Quanto custa cada modelo

Preços por milhão de tokens, em dólares, convertidos a 0,8876 € por dólar (câmbio do BCE de 4 de novembro de 2026). A última coluna é o custo de uma tarefa-tipo de 2.000 tokens de entrada e 600 de saída, já em euros.

ModeloFornecedorEntrada ($/1M)Saída ($/1M)Tarefa-tipo
gpt-6-lunaOpenAI0,10,50,4438 €
Haiku 5.5Anthropic0,10,50,4438 €
Gemini 3.1 Flash-LiteGoogle0,251,51,2426 €
deepseek-flashDeepSeek0,31,21,1716 €
Gemini 3.6 FlashGoogle0,753,753,3283 €
gpt-6.1-terraOpenAI1,05,04,4377 €
deepseek-v4-proDeepSeek1,323,964,4519 €
Sonnet 5.5Anthropic2,010,08,8755 €
gpt-6.1-solOpenAI2,010,08,8755 €
Gemini 4 ArgonGoogle2,010,08,8755 €
Opus 5.5Anthropic4,020,017,751 €
gpt-6-astraOpenAI10,050,044,3774 €
Fable 5.1Anthropic10,050,044,3774 €

A DeepSeek tem preço de hora de ponta e fora de ponta (metade); usámos o valor de ponta, que é o mais desfavorável. Os preços da Google para o Gemini 4 Argon e o 3.6 Flash sobem a 1 de dezembro de 2026 e 1 de janeiro de 2027, respetivamente — a tabela usa os valores em vigor hoje.

Simulador: a conta da tua empresa

Quanto custa a IA ao lado da folha de salários

Muda os valores e vê o impacto imediato. Tudo em euros, por mês.

Custo IA / mês—
Custo IA / ano—
Pessoal / mês—
IA vs pessoal—
Tarefas / mês—
Horas poupadas—
Valor poupado—
Retorno—

Valor das horas poupadas ao custo médio do trabalho em Portugal (19,4 €/h, Eurostat). O retorno é esse valor a dividir pelo custo da IA — é teórico: só se conta se as horas forem realmente reaproveitadas noutra coisa.

Custo por modelo, à escala de mil tarefas

Custo de 1.000 tarefas de 2.000 tokens de entrada e 600 de saída, em euros. A barra laranja é o modelo escolhido no simulador.

A IA face à folha de salários

Pessoal (mês)—
IA (mês)—

Escala relativa. Com os valores iniciais, a IA representa menos de 1% do custo com pessoal.

Custo anual da IA à medida que a adoção sobe, mantendo o número de trabalhadores.

Departamento a departamento

Nem todos os departamentos custam o mesmo nem usam a IA da mesma maneira. Esta tabela usa salários de referência do mercado português — editáveis no simulador — e calcula o custo real de cada pessoa para a empresa, incluindo os 23,75% de TSU a cargo da entidade empregadora, 1% de seguro de acidentes e subsídio de refeição.

DepartamentoSalário brutoCusto empresa/mêsCusto/horaPeso
Administração e finanças1 900 €2 889 €20,2 €12%
Comercial e vendas1 600 €2 453 €17,1 €18%
Marketing e conteúdo1 700 €2 598 €18,1 €10%
Operações e logística1 300 €2 016 €14,1 €22%
Recursos humanos1 600 €2 453 €17,1 €6%
Tecnologia e engenharia2 600 €3 908 €27,3 €12%
Apoio ao cliente1 200 €1 871 €13,1 €14%
Jurídico e compliance2 300 €3 471 €24,2 €6%

Salário bruto mensal × 14 pagamentos; TSU 23,75% e seguro 1% sobre o bruto anual; subsídio de refeição de 6,15 € por 22 dias em 11 meses (valor isento). Custo/hora sobre 1.720 horas anuais. Os salários são valores de referência para simulação, não uma tabela oficial por função.

O novo mercado de trabalho em custos

O custo do trabalho em Portugal subiu para 19,4 € por hora em 2025 (Eurostat), mais 6,6% num ano — acima da média da União Europeia. A remuneração bruta média chegou a 1.835 € no segundo trimestre de 2026, com uma base média de apenas 1.342 €: a diferença são subsídios, prémios e horas extra.

É neste contexto que a IA entra, e entra pelo lado errado da comparação — pelo lado barato. Uma tarefa que consome 4,4 cêntimos no modelo mais caro custa, ao salário médio, cerca de 1,90 € em tempo de trabalho (6 minutos a 19,4 €/h). A IA não substitui o trabalho: substitui minutos. E é por minutos que se mede a conta.

O que muda na prática:

1. O custo marginal de uma tarefa administrativa aproxima-se de zero. Responder a um email, resumir um contrato, classificar um ticket: tudo abaixo de 5 cêntimos. O que era um custo variável de pessoal passa a ser um custo fixo de subscrição ou de API.

2. O júnior é quem mais sente. As tarefas de entrada — pesquisa, formatação, primeira versão — são exatamente as que os modelos fazem melhor. O mercado já o mostra: as vagas de entrada em funções administrativas e de conteúdo são as que crescem menos.

3. O custo esconde-se na integração. A API custa 40 €/mês; ligá-la aos sistemas, treinar as pessoas e manter os dados em ordem custa 10 a 50 vezes mais. É o mesmo padrão de qualquer software: a licença é a parte barata.

4. A conta muda com o volume, não com o salário. Substituir um salário de 1.700 € por IA exigiria cerca de 900 mil tarefas por mês ao modelo mais caro — ou 40 mil ao mais barato. Nenhuma empresa portuguesa tem esse volume num só processo.

O que este simulador não conta

Não conta o custo de integrar (consultoria, tempo interno, licenças de plataformas), nem o custo de errar (alucinações, revisão humana, responsabilidade), nem a curva de aprendizagem. Também não conta a subida de preços: a Google já anunciou aumentos para dezembro e janeiro, e os preços por token têm caído ao longo do tempo, mas não de forma estável. As decisões que se tomam com estes números são de ordem de grandeza, não de orçamento.

O júnior é quem mais sente

As tarefas de entrada — pesquisa, formatação, primeira versão, resumo — são exatamente as que os modelos fazem melhor e mais barato. É por isso que o impacto no mercado de trabalho aparece primeiro nas vagas júnior, e não nos salários dos seniores.

Em Portugal, o custo do trabalho subiu para 19,4 € por hora em 2025, mais 6,6% num ano, acima da média europeia. A remuneração bruta média chegou a 1.835 € no segundo trimestre de 2026, mas a base média é de apenas 1.342 €: a diferença são subsídios, prémios e horas extra. É sobre a base que os encargos incidem, e é a base que a IA está a comprimir.

O custo esconde-se na integração

A API custa 40 € por mês; ligá-la aos sistemas, treinar as pessoas e manter os dados em ordem custa 10 a 50 vezes mais. É o mesmo padrão de qualquer software: a licença é a parte barata.

E há o custo de errar: alucinações, revisão humana, responsabilidade. Um modelo que responde mal a um cliente custa mais do que o token que gastou.

A conta muda com o volume, não com o salário

Substituir um salário de 1.700 € por IA exigiria cerca de 58 mil tarefas por mês ao modelo mais caro — ou 5,8 milhões ao mais barato. Nenhuma empresa portuguesa tem esse volume num único processo.

O que existe é outra coisa: a mesma pessoa a fazer o dobro das tarefas, ou o mesmo departamento a crescer sem contratar. É aí que a conta fecha — não na substituição, na densidade.

Metodologia: preços por milhão de tokens nas páginas oficiais de OpenAI, Anthropic, Google e DeepSeek, consultados a 4 de novembro de 2026 e convertidos a 0,8876 €/USD (BCE). A tarefa-tipo (2.000 tokens de entrada, 600 de saída) é uma convenção para comparar modelos, não uma medição de consumo real. Salários por departamento são valores de referência para simulação, não uma tabela oficial. Encargos: TSU patronal 23,75%, seguro de acidentes 1%, subsídio de refeição 6,15 €/dia em 22 dias e 11 meses; 14 pagamentos anuais; 1.720 horas/ano.

Hashtags do dia

#IA · #Custos · #Tokens · #Salários · #Simulador · #Empresas · #Portugal

Nós sabemos e tu?

O IQ OS cruza notícias com contratos públicos, empresas e autarquias. Os dados que estão por trás das manchetes.