Ovar: o telefone voltou, o sistema não — e o país soma 3.181 ciberataques por semana
Partilhar
Nove dias depois do ataque informático, a Câmara de Ovar atende chamadas mas responde depois: email, BUPi, EcoLinha e os processos de urbanismo continuam parados. O caso não é isolado — Gondomar, a AMA, a CIM de Leiria e as secretas já passaram pelo mesmo. E os números pioraram 61% num ano.
Nove dias depois, um telefone a funcionar pela metade
A Câmara Municipal de Ovar foi alvo de um ataque informático no fim de semana de 17 e 18 de outubro. Todos os serviços municipais fecharam ao público até quarta-feira, 21, e os prazos administrativos em curso foram suspensos.
Esta terça-feira, 27 de outubro, a autarquia retomou o atendimento telefónico — mas com resposta diferida. Na prática: um funcionário atende a chamada, regista o assunto e, no final do dia, passa os registos ao serviço competente. Só depois é que esse serviço contacta o munícipe, "se for possível".
O sistema informático continua em baixo. Email, BUPi (Balcão Único do Prédio) e EcoLinha estão indisponíveis e os processos de urbanismo estão suspensos, com exceção dos que não dependem de acesso ao sistema.
Os números
A cronologia de Ovar
| Data | O que aconteceu |
|---|---|
| 17–18 out. | Ataque informático ao sistema municipal |
| 18 out. | Autarquia confirma o ataque e encerra serviços ao público |
| até 21 out. | Serviços fechados; prazos administrativos suspensos |
| 22 out. | Reabertura condicionada e atendimento presencial |
| 27 out. | Telefone volta, com resposta diferida |
O que funciona e o que não funciona
Funciona: atendimento telefónico geral (256 581 300), com registo e encaminhamento diferido; atendimento presencial, de forma condicionada; bilhetes para espetáculos culturais, mas só pela plataforma online BOL; linha própria do Urbanismo (926 691 783), apenas entre as 14h00 e as 16h30 dos dias úteis.
Não funciona: email do município; BUPi; EcoLinha; processos urbanísticos que dependam do sistema; e, na prática, qualquer resposta imediata — porque o circuito passou a ser manual.
A autarquia diz que está a "desenvolver todos os esforços necessários para recuperar, com a maior brevidade possível, a totalidade dos sistemas".
O risco que fica depois de os sistemas voltarem
No dia 20, a Câmara avisou que, "atendendo à abrangência dos sistemas afetados", poderão estar envolvidos dados pessoais de diversa natureza de utilizadores registados. E nomeou os riscos: tentativas de fraude, phishing, usurpação de identidade.
A recomendação aos munícipes é simples e desconfortável: desconfiar de comunicações que pareçam vir do município e nunca dar dados pessoais, credenciais ou dados bancários. Quando um ataque destrói a infraestrutura de uma autarquia, o risco não fica dentro do edifício — sai com os dados.
Não é caso único: os ataques que marcaram o país
Gondomar (setembro de 2023). O presidente da câmara classificou-o como o maior ciberataque a uma instituição pública em Portugal. Dados foram roubados, o sistema ficou inacessível e a autarquia gastou 1,5 milhões de euros na reposição — com meses de recuperação pela frente.
AMA (10 de outubro de 2024). Ataque de ransomware à Agência para a Modernização Administrativa: o portal gov.pt e os serviços de autenticação caíram, e serviços do Estado ficaram dependentes de alternativas manuais. O CNCS foi notificado do incidente.
CIM da Região de Leiria (15 de setembro de 2026). Ransomware ao servidor de email da Comunidade Intermunicipal. Foi isolado na mesma noite, o momento da infeção foi identificado e os dados recuperados até essa hora; só Porto de Mós ficou temporariamente sem email.
Secretas (outubro de 2026). Um ataque a uma empresa informática que prestava serviços ao Sistema de Informações da República Portuguesa expôs dados não classificados. Os atacantes anunciaram a venda de 120 GB e alegaram mais de 312 mil ficheiros.
Quatro anos de incidentes
| Quando | Alvo | O que se sabe |
|---|---|---|
| set. 2023 | Câmara de Gondomar | dados roubados, 1,5 M€ de recuperação |
| out. 2024 | AMA | ransomware; gov.pt e autenticação em baixo |
| set. 2026 | CIM Região de Leiria | ransomware ao email; recuperado na mesma noite |
| out. 2026 | SIRP (via fornecedor) | 120 GB de dados não classificados |
| out. 2026 | Câmara de Ovar | sistema em baixo há nove dias |
Porque é que as autarquias são o elo fraco
O padrão repete-se: sistemas antigos, redes sem segmentação, equipas de informática pequenas e um orçamento que raramente chega para segurança. Uma câmara municipal tem de tudo — cadastro, licenciamento, recursos humanos, água, resíduos, escolas — muitas vezes no mesmo domínio e com contas partilhadas.
É por isso que o ransomware gosta de autarquias: um único ponto de entrada dá acesso a dezenas de serviços e a bases de dados com dados de milhares de munícipes. E é também por isso que a recuperação é lenta: não basta restaurar um servidor, é preciso validar cada sistema antes de o pôr a falar com os outros.
O contraste com Leiria é instrutivo. Lá, o incidente foi detetado durante a noite, o servidor foi isolado, o momento da infeção identificado e os dados repostos até essa hora. Em Ovar, nove dias depois, o email ainda não voltou.
O que ainda não se sabe
A autarquia não confirmou se foi ransomware, se houve pedido de resgate, se o resgate foi pago, nem se os dados foram exfiltrados — apenas que podem estar envolvidos dados pessoais. Não é claro se o incidente foi comunicado à CNPD no prazo de 72 horas que o RGPD impõe, nem que apoio técnico externo está a ser usado.
São as perguntas que decidem a gravidade real: um ataque que encripta e não sai do perímetro é um problema de disponibilidade; um ataque que copia dados é um problema que dura anos.
Ver em vídeo
O ataque à Câmara de Ovar, em vídeo.
Fontes
- Câmara de Ovar retoma atendimento telefónico após ataque informático, mas com resposta diferida
- Ataque informático à Câmara de Ovar pode ter comprometido dados pessoais
- Ciberataque paralisa Câmara de Ovar e encerra serviços municipais
- Portugal sofre mais de três mil ciberataques por semana
- Ciberataque à Câmara de Gondomar foi o maior a uma instituição pública
- AMA alvo de ciberataque e CNCS a prestar apoio
- CIM da Região de Leiria alvo de ataque informático
Hashtags do dia
#Ovar · #Cibersegurança · #Ransomware · #Autarquias · #DadosPessoais · #Portugal
Nós sabemos e tu?
O IQ OS cruza notícias com contratos públicos, empresas e autarquias. Os dados que estão por trás das manchetes.