Uma onda azul nos EUA e um ramo de oliveira em São Bento

Sabemos Studio04/11/202610 min de leituraAnálises

Os democratas conquistaram o Senado e a Câmara dos Representantes, segundo as projeções, e Donald Trump atribuiu a derrota, em parte, à guerra no Irão. Em Lisboa, Luís Montenegro convocou PS e Chega para quinta-feira, no dia em que os CTT anunciaram a venda de uma posição maioritária no banco e um lucro 39,8% menor até setembro.

O dia em três frases

Os Estados Unidos acordaram com maioria democrata nas duas câmaras do Congresso — uma vitória que as projeções anunciavam, mas não com esta dimensão. Em Portugal, o primeiro-ministro respondeu à pressão das ruas com política: PS e Chega estão convocados em São Bento para quinta-feira. E os CTT, com o lucro a cair 39,8% até setembro, iniciaram a venda de uma posição maioritária no Banco CTT.

São três histórias diferentes com o mesmo fio: o custo político de não resolver um problema antes de ele chegar à rua.

Grupo de pessoas a celebrar numa sala com ecrãs de televisão
Apoiantes democratas na noite eleitoral, nos Estados Unidos. Foto: RTP

EUA: uma onda azul maior do que as sondagens

As projeções da imprensa norte-americana dão aos democratas o controlo da Câmara dos Representantes e do Senado, o que deixa Donald Trump sem margem para aprovar a sua agenda nos dois últimos anos de mandato. Para o Observador, o que se viu na madrugada desta quarta-feira «não foi uma onda, foi um tsunami».

A noite trouxe vitórias em terrenos improváveis: Roy Cooper tirou aos republicanos o lugar no Senado pela Carolina do Norte, Jon Ossoff (Geórgia) e Chris Pappas (New Hampshire) seguraram lugares que os democratas temiam perder, Annie Andrews venceu na Carolina do Sul — um estado que não vota democrata para Presidente desde Jimmy Carter, em 1976 — e James Talarico recuperou o Texas para os democratas, derrotando Ken Paxton. O Observador assinala ainda governadores democratas eleitos no Texas e no Iowa; a RTP destaca que a Califórnia e o Texas elegeram governadores latinos pela primeira vez.

O denominador comum, escreve o Observador, foi o voto de rejeição: a guerra no Irão, a subida dos preços dos combustíveis, o impacto das tarifas nos agricultores e o desagrado com os raides do ICE entre o eleitorado latino.

Trump: «a guerra no Irão, em parte»

Numa entrevista telefónica à Fox News, Trump considerou que a guerra no Irão foi «parcialmente» responsável pela derrota republicana, felicitou os democratas — «fizeram um bom trabalho e lutaram bem» — e recusou ler o resultado como uma avaliação da sua gestão: «Não tem nada a ver com o meu gabinete.»

Reconheceu, ainda assim, o provável impacto do aumento dos preços dos combustíveis. «Quase nunca o presidente em exercício, independentemente de ser bom ou mau, republicano ou democrata, consegue vencer» as intercalares, argumentou.

Na Truth Social escreveu que não estava no boletim de voto e que, se estivesse, «teríamos ganho com uma vitória esmagadora». Antes da votação tinha prometido ser o «Senhor Veto»; na noite eleitoral publicou a fotografia de um boné vermelho com a palavra «Veto». Ao Politico disse que tem «o direito de vetar qualquer coisa», mas que prefere «não passar dois anos sentado a vetar tudo».

O dia em números

intercalares mais caras10 mil M$Donativos e propaganda superaram os 10 mil milhões de dólares — recorde absoluto (Observador)
câmaras viraram2Senado e Câmara dos Representantes, segundo as projeções da imprensa (RTP)
lucro dos CTT19,8 M€Menos 39,8% até setembro; receitas subiram 9,2% para 994,7 M€ (ECO)
EBIT recorrente58,9 M€Menos 20,5%; objetivo anual cortado para 80–85 M€ (ECO)
mortos em Toledo69Balanço provisório do choque de dois TGV em Urda; 15 feridos graves (ECO)
cargas policiais3Nos protestos pela habitação em Lisboa e no Porto (ECO)
Luís Montenegro a falar num púlpito, entre as bandeiras de Portugal e da União Europeia
Luís Montenegro na declaração ao país, na noite de terça-feira, em São Bento. Foto: Observador

Habitação: PS e Chega chamados a São Bento na quinta-feira

Depois de três semanas de protestos e de três cargas policiais em Lisboa e no Porto, Luís Montenegro fez na terça-feira à noite uma declaração ao país a partir da residência oficial. «Sem fantasmas nem falsos papões», insistiu na necessidade de pôr mais casas no mercado para «moderar os preços», recusou que o Governo tenha «acordado agora para o diálogo político» e avisou para o risco de «importação de protestos violentos».

A seguir, convocou para quinta-feira, em São Bento, o secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, e o presidente do Chega, André Ventura. O encontro com Carneiro foi marcado depois de uma videochamada entre os dois na manhã de terça-feira.

O PS aceitou, mas com condições: Carneiro diz-se «disponível para ajustar» o projeto socialista sobre rendas e admite «chegar a um ponto de encontro», desde que o primeiro-ministro «coloque no seu arquivo» a proposta do Governo, que considera agravar os problemas «para os mais jovens, as famílias e os idosos». «Se o primeiro-ministro estiver de boa-fé, é possível encontrar uma saída», disse. O Chega também aceitou o convite e garantiu que «não abdicará de lutar por habitação acessível e defesa intransigente das forças de segurança»; Ventura quer a lei das rendas aprovada «a três», com PSD e PS.

A oposição classificou a abertura como «táctica» e «arrogância». E o Público nota o pano de fundo institucional: o Presidente da República, António José Seguro, manifestou desagrado com as imagens da atuação policial e pediu esclarecimentos, enquanto Montenegro defendeu a PSP — com o ministro da Administração Interna, Luís Neves, a tornar-se, segundo o ECO, um dos principais focos de desgaste do Executivo.

Finalmente, o primeiro-ministro reconhece que a crise da habitação não pode ter solução policial.
— José Luís Carneiro, secretário-geral do PS, em comunicado
Fachada de uma loja dos CTT com o símbolo do cavaleiro e a insígnia do Banco CTT
Loja dos CTT e do Banco CTT. O grupo quer vender uma posição maioritária no banco. Foto: ECO

CTT: lucro afunda 39,8% e o banco vai a venda

O lucro líquido dos CTT caiu 39,8% nos primeiros nove meses do ano, para 19,8 milhões de euros. A causa imediata tem nome europeu: o fim da isenção dos «de minimis», com a introdução de uma taxa de três euros em encomendas de valor inferior a 150 euros vindas de fora da União Europeia, que entrou em vigor no início do terceiro trimestre. Entre julho e setembro, o volume de encomendas extracomunitárias entregues pelo grupo caiu 43% em termos homólogos.

As receitas totais subiram 9,2% para 994,7 milhões de euros, mas os custos operacionais cresceram mais: 12,1%, para 870,3 milhões. O EBIT recorrente caiu 20,5% para 58,9 milhões e a empresa cortou pela segunda vez o objetivo para o ano, para um intervalo de 80 a 85 milhões — contra 115 milhões em 2025.

No mesmo dia, os CTT anunciaram o início do processo de venda de uma posição maioritária no Banco CTT, criado em 2015. A alienação de 100% do capital está, à partida, descartada, e o grupo diz que vai avaliar «todas as alternativas», privilegiando soluções que mantenham a ligação à instituição, incluindo a nível acionista. Não há detalhes nem calendário.

Óscar Puente de mãos juntas junto ao rosto, entre as bandeiras de Espanha e da União Europeia
Óscar Puente, ministro dos Transportes de Espanha, na comissão do Congresso onde anunciou a demissão. Foto: ECO

Espanha: Puente demite-se e as eleições ficam marcadas para 29 de novembro

O ministro dos Transportes e Mobilidade Sustentável de Espanha, Óscar Puente, anunciou esta terça-feira a demissão e disse que não integrará as listas socialistas para as legislativas de 29 de novembro. «Não pode continuar no cargo com dois acidentes desta gravidade em menos de um ano, por mais diferentes que sejam e tenha ou não responsabilidade direta neles», declarou na Comissão Permanente do Congresso.

Puente evocou o antigo ministro português Jorge Coelho, que se demitiu em 2001 depois da queda da ponte de Entre-os-Rios, e parafraseou-o: «a culpa não pode morrer solteira». Falou de «dignidade política, coerência e empatia com as vítimas».

O acidente aconteceu na quarta-feira anterior, quando dois comboios de alta velocidade com mais de 500 pessoas a bordo colidiram em Urda, a cerca de 150 quilómetros a sul de Madrid. O balanço provisório é de 69 mortos; pelo menos 110 pessoas foram atendidas em hospitais e 15 continuam internadas em estado grave.

Avião Boeing 737 da Ryanair em voo
Um Boeing 737 da Ryanair; um voo da companhia proveniente de Lisboa foi alvo de ameaça em Roma. Foto: Observador

Ameaças de bomba em voos europeus, um deles vindo de Lisboa

Pelo menos sete aviões foram alvo de ameaças ou de operações de segurança nas últimas 24 horas, incluindo um voo da Ryanair que aterrou em Roma proveniente de Lisboa. As contagens não coincidem: o Observador fala em «pelo menos sete aviões» no corpo do artigo mas titula «seis voos»; o DN e o JN escrevem sete. Nenhum engenho foi encontrado.

O primeiro caso foi na segunda-feira: um avião da húngara Wizz Air que fazia Londres–Sófia recebeu uma ameaça em pleno voo e foi desviado para Budapeste, escoltado por um caça das Forças Armadas húngaras. Esta terça-feira, um Boeing 737 MAX da polaca LOT que ligava Londres a Varsóvia, com 181 pessoas a bordo, foi também desviado e aterrou às 10h01 locais. O aeroporto de Modlin, em Varsóvia, chegou a encerrar. Forças policiais e militares foram mobilizadas e algumas aeronaves foram escoltadas por caças.

Também hoje

Centros de dados. O decreto-lei com os critérios de licenciamento sai até ao fim do ano e terá «grande exigência» no consumo de água, disse a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho: arrefecimento sem água ou com água do mar, como em Sines, avaliação de impacte ambiental e garantia de energia renovável — que não tem de ser produzida pelos próprios centros. Na ligação à rede, a prioridade será da indústria.

Carros elétricos. O apoio à compra por famílias vulneráveis e microempresas abrange mais de 20 mil veículos, com comparticipação até 80%, e o concurso deve ser lançado no início de 2027. Há 1,5 milhões de famílias elegíveis; falta o aval da Comissão Europeia. O plano de apoio, no âmbito do Plano Social para o Clima, tem 1,6 mil milhões de euros até 2032.

Tempo. Uma massa de ar polar faz cair as temperaturas a partir desta quarta-feira, com mínimas a chegar aos zero graus em algumas regiões do país. A chuva regressa no fim de semana.

Ver em vídeo: a noite eleitoral nos EUA

Do resultado à reação de Trump, o que os canais portugueses e internacionais mostraram na noite eleitoral.

Ver em vídeo: a crise da habitação em São Bento

As declarações de Montenegro, a reação do PS e as imagens dos protestos que puseram a habitação no centro da política.

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