A noite das 99 tendas: 13 detidos e um país em protesto

Sabemos Studio02/11/202610 min de leituraAnálises

99 tendas, 13 detidos e feridos contados de forma diferente: o rescaldo da carga policial em Lisboa e no Porto, a pressão política sobre Luís Neves e o protesto alargado a sete cidades.

04:30, duas praças, a mesma ordem

O Corpo de Intervenção da PSP avançou às 04:30, em simultâneo, sobre as acampadas pelo direito à habitação no Rossio, em Lisboa, e na Praça D. João I, no Porto. Meia hora depois, às 05:00, já não havia manifestantes nas praças: ficaram as tendas, que a Polícia Municipal de Lisboa recolheu, e os detidos.

A PSP fez 13 detenções — sete no Porto e seis em Lisboa — e apreendeu 99 tendas, segundo o balanço do subintendente Sérgio Soares. Treze agentes ficaram feridos, dez do Corpo de Intervenção e três que trabalhavam à civil. Um repórter de imagem da CMTV foi agredido à bastonada enquanto filmava, no Porto.

Do lado dos manifestantes, os números não são os mesmos. A organização da acampada do Porto contabilizou 38 feridos, três deles graves e com tratamento hospitalar. A Lusa, citando fonte policial, falou em «mais de duas dezenas de feridos» entre manifestantes e polícias. A PSP não apresentou uma contagem de manifestantes feridos — os dois lados contam coisas diferentes: a polícia conta os seus agentes e os detidos, o movimento conta as pessoas assistidas na praça.

Na vistoria ao Rossio, a PSP encontrou três cocktails molotov nas imediações da praça da Figueira — um intacto, dois partidos e sem qualquer deflagração — que entregou à Divisão de Investigação Criminal. E no Porto, depois da carga, um grupo de polícias à paisana com bastões extensíveis foi perseguido por manifestantes junto à Câmara Municipal. Um dos agentes mostrou uma pistola para se afastar; a PSP diz que houve «uso passivo» da arma e que dois dos seus elementos foram hospitalizados após agressões.

Manifestantes de punho no ar numa concentração pela habitação em Lisboa
Punhos no ar no Rossio, em Lisboa, no dia seguinte à terceira carga policial. Foto: CNN Portugal

Os números da noite

tendas apreendidas99Lisboa e Porto, segundo a PSP
detidos13sete no Porto, seis em Lisboa
feridos no Porto38contagem do movimento; três graves
pessoas no Porto2 500assembleia da Praça D. João I
drones russos433lançados numa noite; Kiev diz ter abatido 371
encomendas por dia5 Ma entrar na UE, de fora do bloco

Rossio: uma hora entre a multa e a festa

Pelas 20:30, a tensão voltou ao Rossio. A PSP começou a multar automobilistas que buzinavam à passagem pela praça, por considerar que «buzinadelas durante uma manifestação não era admissível», contou uma testemunha aos jornalistas. Os manifestantes dirigiram-se para junto dos condutores multados e as carrinhas do Corpo de Intervenção acabaram por se deslocar para os Restauradores.

Uma hora depois, o ambiente era de festa: milhares de pessoas junto à estrada respondiam às buzinas com aplausos e palavras de ordem — «25 de Abril sempre, fascismo nunca mais», «O povo unido jamais será vencido». A assembleia popular da acampada de Lisboa tinha terminado cerca das 19:00.

O clima só foi interrompido por dois petardos junto ao Teatro Dona Maria II e, por volta das 22:20, por um estrondo no Rossio. A PSP identificou um homem de 41 anos perseguido por dezenas de manifestantes até um restaurante de fast-food: negou ter lançado o petardo e disse que fugiu por estar a ser acusado de ser polícia infiltrado. O porta-voz da acampada, João Veloso, alegou que se tratava de um agente infiltrado, sem apresentar provas; a advogada da acampada, Joana Marques Brás, disse não ser possível confirmar essa acusação.

Porto: 2 500 pessoas votam outra noite em tendas

Na Praça D. João I, cerca de 2 500 pessoas aprovaram por maioria continuar a acampada esta noite, com tendas. «Montar as tendas não significa que vão ficar montadas a noite toda. A tenda é um símbolo», disse a mesa da assembleia, que afirmou saber que a PSP não vai intervir na próxima madrugada.

A assembleia recusou o convite do presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte, para uma reunião na terça-feira nos Paços do Concelho, onde o autarca queria discutir a compatibilização do direito à manifestação com a disponibilidade dos espaços urbanos, incluindo no período natalício. Foi também aprovado um voto de repúdio pela carga policial, o pedido de demissão do ministro da Administração Interna e do Governo e um apelo ao Presidente da República para que tome posição.

O protesto alastrou. Para a tarde de domingo estavam convocadas concentrações e assembleias em Lisboa, Porto, Évora, Portimão, Viana do Castelo, Funchal e Faro, a maioria às 17:00. Em Faro e no Funchal, as assembleias aprovaram votos de solidariedade às acampadas.

Manifestantes de capacete em frente a uma linha de polícias de intervenção, à noite, no Porto
Manifestantes de capacete em frente aos agentes do Corpo de Intervenção, na Praça D. João I, no Porto. Foto: Observador

Belém pediu explicações. O PS quer Neves no Parlamento

O Presidente da República falou com os presidentes das Câmaras de Lisboa e do Porto e com representantes das acampadas, e pediu esclarecimentos ao Governo e à Provedora de Justiça sobre a atuação policial. Seguro já tinha falado com o primeiro-ministro, Luís Montenegro, e com a provedora.

No plano partidário, o secretário-geral do PS exigiu a presença urgente de Luís Neves no Parlamento para explicar a intervenção; o PCP pediu um debate de urgência sobre a actuação policial e o Livre pediu a demissão do ministro. Um advogado anunciou uma queixa-crime por abuso de poder contra o ministro da Administração Interna e o diretor nacional da PSP.

Luís Neves respondeu que «o meu lugar está permanentemente à disponibilidade do primeiro-ministro» e que «o Estado, o Governo, as polícias não querem nada disto». Sobre a violência, sustentou que «uma pequena franja de manifestantes põe em causa o cumprimento da lei» — a mesma linha do comunicado em que a PSP diz ter intervindo para repor «a legalidade da ocupação do espaço público».

O meu lugar está permanentemente à disponibilidade do primeiro-ministro.
— Luís Neves, ministro da Administração Interna

Ucrânia: 433 drones numa noite e uma refinaria atingida

A Rússia atacou a rede elétrica ucraniana em quatro regiões na noite de sábado para domingo, deixando centenas de milhares de casas sem eletricidade. «A intensidade dos ataques é muito alta, e os russos estão a tentar explorar ao máximo a falta de interceptores de mísseis balísticos», escreveu Volodymyr Zelensky no Telegram.

Kiev respondeu com drones. Segundo a Força Aérea ucraniana, foram lançados 433 aparelhos de longo alcance desde a noite de sábado e 371 foram abatidos; o Ministério da Defesa russo diz ter destruído 235 drones sobre regiões russas. Na região de Nizhny Novgorod, o governador Gleb Nikitin falou de «danos significativos» numa instalação industrial do distrito de Kstovsky, onde fica a refinaria NORSI, uma das maiores da Rússia. Não confirmou que fosse a refinaria e disse que mais de 100 drones foram destruídos.

Zelensky afirmou também que a Ucrânia atingiu a fábrica de Kamensky, na região de Rostov, que descreveu como ligada à produção de mísseis russos; o exército ucraniano fala de combustível para foguetes. Moscovo não comentou esse ataque. A guerra energética voltou a intensificar-se depois de Kiev ter suspendido os ataques a refinarias sob pressão de Washington, que lhes atribui a subida do preço do gasóleo.

Militares ucranianos a preparar um drone de asa fixa sob redes de camuflagem
Militares ucranianos preparam um drone de longo alcance. Foto: Euronews

A três dias das intercalares, Trump promete ser o «Sr. Veto»

Os Estados Unidos votam na terça-feira, 3 de novembro: renovam-se os 435 lugares da Câmara dos Representantes, 35 dos 100 lugares do Senado e 36 governadores. As sondagens dão vantagem aos democratas — a Decision Desk HQ aponta 77% de probabilidade de maioria na Câmara e 56% no Senado — e a aprovação de Trump está em 32%, segundo a Reuters/Ipsos, num contexto marcado pela inflação e pela guerra com o Irão.

Questionado pela Fox News sobre o que faria se os democratas conquistassem o Congresso, Trump disse que se tornaria o «Sr. Veto». «Não seria a primeira vez», afirmou, explicando que um Presidente sem maioria recebe propostas, veta-as e, «depois de um ou dois meses a vetar tudo», a oposição volta para fechar um acordo. A Reuters noticiou entretanto que a Casa Branca prepara um plano para governar sem o Congresso caso perca as duas câmaras.

Donald Trump de punho erguido num aeroporto
Donald Trump, que promete vetar tudo se os democratas ganharem o Congresso. Foto: Executive Digest

Encomendas de fora da UE: mais 2 euros por categoria

Desde domingo, qualquer encomenda vinda de fora da União Europeia paga uma Taxa de Manuseamento Aduaneiro de 2 euros + IVA por tipo de artigo. É aplicada independentemente do valor da compra e soma-se aos 3 euros + IVA que a Comissão Europeia cobra desde 1 de julho às encomendas até 150 euros — um regime que termina em 2028, quando entrar o novo sistema aduaneiro europeu, e que a nova taxa não substitui.

Na prática, cinco t-shirts pagam uma taxa de 2 euros (são uma só categoria); um relógio, camisolas e joias pagam 6 euros, porque são três categorias. Em Portugal, os CTT detalham que uma compra até 150 euros paga IVA, 3 euros de direitos aduaneiros, 2 euros de taxa de manuseamento e ainda os custos de desalfandegamento.

Bruxelas defende que o custo deve ser suportado pelas plataformas, mas não previu nenhum mecanismo que impeça o seu repercutimento no preço final. Chegam cerca de cinco milhões de encomendas por dia à Europa, a maioria de plataformas chinesas como Temu, AliExpress e Shein, e a Comissão estima que cerca de 60% não cumprem os requisitos comunitários. A medida entra em vigor a poucas semanas do Black Friday.

O que se paga por uma encomenda vinda de fora da UE

EncargoAté 150 €Acima de 150 €
IVASobre o valor da compraSobre o valor da compra
Direitos aduaneiros3 € + IVA por tipo de artigoad valorem, por artigo
Taxa de manuseamento2 € + IVA por tipo de artigo2 € + IVA por tipo de artigo
DesalfandegamentoServiço dos CTTServiço dos CTT

Duas notas: 700 fogos para arrendar e 3,2 mil milhões para Ortega

O Grupo Mais tem mais de 700 fogos em construção para arrendamento, em projetos distribuídos pelo país com maior incidência no Centro e no Sul, anunciou a empresa. Não divulgou o investimento nem as rendas previstas — a proximidade a universidades, hospitais e polos de emprego é o critério invocado para escolher as localizações.

Em Espanha, Amancio Ortega, fundador e maior acionista da Inditex, recebe esta segunda-feira a última tranche dos dividendos do ano: 1 617 milhões de euros, que elevam o total de 2026 a 3 234 milhões.

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#Habitação · #Acampadas · #PSP · #Ucrânia · #EleiçõesEUA · #Encomendas · #Atualidade

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