Quem vende ao Estado: as maiores empresas da contratação pública, 2021–2025
O Estado português contratou 83,6 mil M€ entre 2021 e 2025, em 1 028 960 contratos. As dez maiores adjudicatárias ficaram com 11,3% desse valor e as trinta com 22,9% — mas o retrato do topo é surpreendente: 10 das 30 maiores são farmacêuticas ou fornecedores de material médico, e o primeiro lugar é de uma empresa com um único contrato.
Este artigo apresenta o ranking das maiores empresas por valor e por número de contratos, mostra as áreas de compra que mais pesam — em contratos e em euros — e mapeia, com dados do OpenStreetMap, onde estão sediadas as 17 maiores.
A contratação pública nas mãos de poucos, em números
Um mercado de mil milhões por mês
Entre 2021 e 2025, o Estado português publicou 1 028 960 contratos no Portal BASE, no valor de 83,6 mil M€. É mais de mil milhões de euros por mês, todos os meses, durante cinco anos — e a maior parte desse dinheiro foi para um grupo restrito de fornecedores.
As dez maiores adjudicatárias ficaram com 11,3% do valor (9,5 mil M€); as trinta maiores, com 22,9% (19,2 mil M€). Do outro lado há dezenas de milhares de empresas a disputar o resto: entre 2021 e 2025, o Estado contratou com 62 004 adjudicatários diferentes — e as trinta maiores ficaram com quase um quarto do valor.
E há um padrão que salta da lista: 10 das 30 maiores são farmacêuticas ou fornecedores de material médico. O Serviço Nacional de Saúde é o maior comprador do país e compra quase sempre às mesmas multinacionais.
As 12 empresas que mais venderam ao Estado (2021–2025)
Valores contratados, sem IVA. A barra mais à esquerda é um único contrato: a concessão da ferrovia de alta velocidade.
- AVAN Norte (ferrovia de alta velocidade)1,66 mil M€
1 contratos · 2,0% do total
- JANSSEN CILAG FARMACEUTICA1,09 mil M€
3 731 contratos · 1,3% do total
- Endesa Energia1,08 mil M€
1 192 contratos · 1,3% do total
- PETROGAL968,4 M€
3 765 contratos · 1,2% do total
- Ribera Portugal – Parcerias de Cascais881,5 M€
1 contratos · 1,1% do total
- ROCHE FARMACEUTICA QUIMICA871,4 M€
3 720 contratos · 1,0% do total
- Alstom Ferroviária Portugal788,3 M€
17 contratos · 0,9% do total
- Merck Sharp & Dohme724,2 M€
2 802 contratos · 0,9% do total
- NOVARTIS FARMA - Produtos Farmacêuticos707,3 M€
4 578 contratos · 0,8% do total
- Iberdrola Clientes Portugal689,4 M€
646 contratos · 0,8% do total
- MEO - Serviços de Comunicações e Multimédia664,8 M€
4 392 contratos · 0,8% do total
- LABORATORIOS PFIZER624,2 M€
5 926 contratos · 0,8% do total
Portal BASE, índice de contratos do Sabemos Studio · 2021–2025 · contratos com adjudicatário identificado.
Um contrato pode valer mais do que mil compras
O topo da tabela não é feito de quem vende muito, mas de quem vende caro. AVAN Norte (ferrovia de alta velocidade) tem um contrato e 1,7 mil M€ — 2,0% de toda a contratação pública de cinco anos. É a concessão da linha de alta velocidade entre Lisboa e o Porto, assinada em 2025.
O mesmo padrão em três outras posições: Ribera Portugal – Parcerias de Cascais (o hospital público de Cascais em parceria público-privada) tem um contrato de 881,5 M€; a Vialagus, um contrato de 397,2 M€ para transportes públicos; a Scotturb, 538,4 M€ em apenas 12 contratos.
São os contratos de concessão e de parceria: duram décadas, são assinados uma vez e raramente voltam a concurso. Ao lado deles, a farmacêutica JANSSEN CILAG FARMACEUTICA chega ao segundo lugar com 3 731 contratos — uma média de 291 550 € por contrato.
As 20 maiores adjudicatárias do Estado (2021–2025)
| # | Empresa | NIF | Contratos | Valor | Quota | Área principal |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | AVAN Norte (ferrovia de alta velocidade) | 518400581 | 1 | 1 661 M€ | 2,0% | Construção e obras públicas |
| 2 | JANSSEN CILAG FARMACEUTICA | 500189412 | 3 731 | 1 088 M€ | 1,3% | Medicamentos e material médico |
| 3 | Endesa Energia | 980245974 | 1 192 | 1 082 M€ | 1,3% | Energia e combustíveis |
| 4 | PETROGAL | 500697370 | 3 765 | 968 M€ | 1,2% | Energia e combustíveis |
| 5 | Ribera Portugal – Parcerias de Cascais | 517091402 | 1 | 882 M€ | 1,1% | Saúde e acção social |
| 6 | ROCHE FARMACEUTICA QUIMICA | 500233810 | 3 720 | 871 M€ | 1,0% | Medicamentos e material médico |
| 7 | Alstom Ferroviária Portugal | 500274371 | 17 | 788 M€ | 0,9% | Construção e obras públicas |
| 8 | Merck Sharp & Dohme | 500191360 | 2 802 | 724 M€ | 0,9% | Medicamentos e material médico |
| 9 | NOVARTIS FARMA - Produtos Farmacêuticos | 500063524 | 4 578 | 707 M€ | 0,8% | Medicamentos e material médico |
| 10 | Iberdrola Clientes Portugal | 502124083 | 646 | 689 M€ | 0,8% | Energia e combustíveis |
| 11 | MEO - Serviços de Comunicações e Multimédia | 504615947 | 4 392 | 665 M€ | 0,8% | Telecomunicações |
| 12 | LABORATORIOS PFIZER | 500162166 | 5 926 | 624 M€ | 0,8% | Medicamentos e material médico |
| 13 | DST – Domingos da Silva Teixeira | 501489126 | 161 | 621 M€ | 0,7% | Materiais de construção |
| 14 | Scotturb-Transportes Urbanos Lda | 511069553 | 12 | 538 M€ | 0,6% | Material de transporte |
| 15 | GILEAD SCIENCES | 503604704 | 1 912 | 533 M€ | 0,6% | Medicamentos e material médico |
| 16 | Gertal | 500126623 | 701 | 527 M€ | 0,6% | Hotelaria e restauração |
| 17 | Uniself Sociedade de Restaurantes Públicos e Privados SA | 501323325 | 701 | 523 M€ | 0,6% | Hotelaria e restauração |
| 18 | Alexandre Barbosa Borges | 500553408 | 249 | 498 M€ | 0,6% | Construção e obras públicas |
| 19 | VIIVHIV HEALTHCARE | 509117961 | 934 | 497 M€ | 0,6% | Medicamentos e material médico |
| 20 | EDP Comercial - Comercialização de Energia | 503504564 | 1 133 | 495 M€ | 0,6% | Energia e combustíveis |
Quem assina mais contratos (2021–2025)
Número de contratos por adjudicatária. Ordem diferente da do valor: quem vende muito barato aparece aqui em cima.
- MEDTRONIC PORTUGAL7 906
424 M€ · média de 53 648 €
- LABORATORIOS PFIZER5 926
624 M€ · média de 105 340 €
- NOVARTIS FARMA - Produtos Farmacêuticos4 578
707 M€ · média de 154 499 €
- MEO - Serviços de Comunicações e Multimédia4 392
665 M€ · média de 151 370 €
- PETROGAL3 765
968 M€ · média de 257 224 €
- JANSSEN CILAG FARMACEUTICA3 731
1 088 M€ · média de 291 550 €
- ROCHE FARMACEUTICA QUIMICA3 720
871 M€ · média de 234 258 €
- SANOFI - PRODUTOS FARMACÊUTICOS3 608
486 M€ · média de 134 673 €
- Merck Sharp & Dohme2 802
724 M€ · média de 258 468 €
- ASTRAZENECA PRODUTOS FARMACEUTICOS2 540
372 M€ · média de 146 449 €
- GILEAD SCIENCES1 912
533 M€ · média de 278 999 €
- Endesa Energia1 192
1 082 M€ · média de 907 508 €
Portal BASE, índice de contratos do Sabemos Studio · 2021–2025.
Quem vende muito e quem vende caro
Comparadas as duas listas, o retrato fica completo. A Medtronic assinou 7 906 contratos (média de 53 648 €) e é apenas a 24.ª por valor; a Janssen tem 3 731 contratos e a maior fatura da farmácia. Já a AVAN Norte tem um contrato e está em primeiro lugar.
É a diferença entre catálogo e obra: material clínico e medicamentos compram-se em milhares de pequenas aquisições ao longo do ano; uma ferrovia, um hospital ou uma rede de transportes compram-se uma vez, por centenas de milhões.
O mesmo se vê nos serviços: Gertal e Uniself, os dois maiores fornecedores de refeições escolares e hospitalares, têm exatamente 701 contratos cada um e valores quase iguais (526,8 M€ e 522,8 M€). É um mercado a dois, com contratos anuais renovados escola a escola.
Lisboa e Oeiras: as sedes do dinheiro público
Das 17 maiores adjudicatárias, 14 têm sede na Área Metropolitana de Lisboa e 6 no concelho de Oeiras — três parques de escritórios (Lagoas Park, Quinta da Fonte e Taguspark) albergam Janssen, Pfizer, MSD, Endesa, Novartis e Gertal.
Não é coincidência: são as filiais portuguesas de multinacionais farmacêuticas e energéticas, que se instalam junto aos centros de decisão e aos grandes compradores públicos. A indústria nacional aparece mais longe: DST e Alexandre Barbosa Borges em Braga, AVAN Norte no Porto.
A geografia das sedes não é a geografia da obra. As empreitadas fazem-se no país inteiro, mas os contratos assinam-se em Lisboa — e é aí que se concentram os serviços centrais, os hospitais de referência e as compras agregadas do Estado.
As áreas com mais contratos (2021–2025)
Contratos por divisão de CPV. As divisões somam 1 054 071 linhas — mais do que os 1 028 960 contratos, porque um contrato pode ter linhas em várias áreas.
- Medicamentos e material médico327 672
14 955 M€ · maior fornecedor: Janssen Cilag Farmacêutica
- Segurança, limpeza e serviços a empresas63 805
3 371 M€ · maior fornecedor: Ronsegur
- Construção e obras públicas63 195
21 015 M€ · maior fornecedor: AVAN Norte – Gestão da Ferrovia de Alta Velocidade
- Reparação e manutenção52 112
2 419 M€ · maior fornecedor: Somafel
- Arquitectura e engenharia43 194
2 377 M€ · maior fornecedor: I-Sete
- Cultura, desporto e recreio38 292
787 M€ · maior fornecedor: Estoril Sol (III) Turismo Animação e Jogo S.A.
- Serviços de TI37 336
2 988 M€ · maior fornecedor: MEO
- Equipamento informático31 933
1 560 M€ · maior fornecedor: —
- Alimentação e refeições31 744
1 111 M€ · maior fornecedor: Eurest Portugal Lda
- Mobiliário e equipamento doméstico28 272
759 M€ · maior fornecedor: —
Portal BASE, índice de contratos do Sabemos Studio · 2021–2025.
Medicamentos: um terço dos contratos do Estado
A divisão 33 — medicamentos e material médico é a maior de todas por número de contratos: 327 672 linhas de CPV, 31,1% do total, no valor de 15,0 mil M€. É mais do dobro da segunda área (segurança e limpeza, com 63 805) e sete vezes mais do que a construção em número de contratos.
O motivo é o modo de compra: o Estado não compra medicamentos de uma vez, compra ao longo do ano, por lotes, por hospital e por princípio ativo. Resultado: muitas linhas de valor médio baixo, quase sempre das mesmas cinco ou seis multinacionais — Janssen, Roche, MSD, Novartis, Pfizer e Gilead ocupam seis dos dez primeiros lugares do ranking por valor.
Segue-se a segurança e limpeza (divisão 79, 63 805 contratos, 3,4 mil M€) — o mercado dos grandes grupos de segurança privada e de limpeza, contratados ano a ano por câmaras, hospitais e escolas.
Onde está o dinheiro: valor por área (2021–2025)
Mesma base, ordenada por valor. Construção lidera com folga; medicamentos vem logo atrás.
- Construção e obras públicas21,01 mil M€
63 195 contratos · 25,9% do valor
- Medicamentos e material médico14,95 mil M€
327 672 contratos · 18,4% do valor
- Energia e combustíveis4,38 mil M€
12 968 contratos · 5,4% do valor
- Resíduos e limpeza urbana3,75 mil M€
23 573 contratos · 4,6% do valor
- Transportes3,59 mil M€
20 513 contratos · 4,4% do valor
- Segurança, limpeza e serviços a empresas3,37 mil M€
63 805 contratos · 4,2% do valor
- Material de transporte3,15 mil M€
21 131 contratos · 3,9% do valor
- Serviços de TI2,99 mil M€
37 336 contratos · 3,7% do valor
- Reparação e manutenção2,42 mil M€
52 112 contratos · 3,0% do valor
- Arquitectura e engenharia2,38 mil M€
43 194 contratos · 2,9% do valor
Portal BASE, índice de contratos do Sabemos Studio · 2021–2025.
Construção: 6% dos contratos, 26% do valor
A construção (divisão 45) é o oposto da farmácia: 63 195 contratos (6,0% do total), mas 21,0 mil M€ — 25,9% de todo o valor contratado. É a área onde um único contrato pode valer mais do que mil compras de material clínico.
Dentro dela, a ferrovia explica a maior parte: a concessão da alta velocidade (AVAN Norte, 1,7 mil M€), a sinalização e o material ferroviário (Alstom, 788,3 M€), a manutenção de vias (Somafel) e as empreitadas de DST, Teixeira Duarte, Mota-Engil, Tecnorém, Marques e Tecnovia Açores.
Depois da construção vêm energia (4,4 mil M€, com Endesa, Iberdrola, Petrogal e EDP), resíduos e limpeza urbana (3,8 mil M€, com Veolia, Port'Ambiente e Suma) e transportes (3,6 mil M€, dominados pelas concessões de autocarros e pela CP). Todas concentradas em poucos operadores.
As dez maiores áreas de compra e os seus líderes
| Área (CPV) | Contratos | Valor | Peso no valor | Maior fornecedor |
|---|---|---|---|---|
| 45 · Construção e obras públicas | 63 195 | 21,0 mil M€ | 25,9% | AVAN Norte – Gestão da Ferrovia de Alta Velocidade |
| 33 · Medicamentos e material médico | 327 672 | 15,0 mil M€ | 18,4% | Janssen Cilag Farmacêutica |
| 09 · Energia e combustíveis | 12 968 | 4,4 mil M€ | 5,4% | PETROGAL |
| 90 · Resíduos e limpeza urbana | 23 573 | 3,8 mil M€ | 4,6% | Veolia Portugal |
| 60 · Transportes | 20 513 | 3,6 mil M€ | 4,4% | Scotturb |
| 79 · Segurança, limpeza e serviços a empresas | 63 805 | 3,4 mil M€ | 4,2% | Ronsegur |
| 34 · Material de transporte | 21 131 | 3,2 mil M€ | 3,9% | Alstom Ferroviária Portugal |
| 72 · Serviços de TI | 37 336 | 3,0 mil M€ | 3,7% | MEO |
| 50 · Reparação e manutenção | 52 112 | 2,4 mil M€ | 3,0% | Somafel |
| 71 · Arquitectura e engenharia | 43 194 | 2,4 mil M€ | 2,9% | I-Sete |
O que estes cinco anos mostram
1. Concentração moderada, mas estável. As dez maiores empresas ficam com 11,3% do valor e as trinta com 22,9%. Não é um mercado capturado, mas é um mercado onde o topo não muda: as mesmas farmacêuticas, os mesmos grupos de construção, os mesmos comercializadores de energia.
2. A saúde manda no volume, a construção manda no valor. Medicamentos e material médico são 31,1% dos contratos e 18,4% do valor; construção é 6,0% dos contratos e 25,9% do valor.
3. Poucos contratos, muito dinheiro. As concessões — ferrovia, hospital de Cascais, transportes — valem milhares de milhões em três ou quatro assinaturas. São também os contratos mais difíceis de reabrir: duram 20, 30, 40 anos.
4. As sedes estão em Lisboa. Catorze das dezassete maiores adjudicatárias têm sede na Área Metropolitana de Lisboa. O dinheiro público é gasto em todo o país, mas contrata-se a partir de meia dúzia de parques de escritórios.
Como se lê isto. Universo: contratos publicados no Portal BASE entre 1 de janeiro de 2021 e 31 de dezembro de 2025, no índice de contratos do Sabemos Studio — 1 028 960 contratos e 83,6 mil M€ com valor declarado. O ranking usa o valor contratado por adjudicatária, somando todos os contratos em que a empresa aparece como adjudicatária; a quota é o peso nesse total. As áreas seguem a divisão de CPV (dois primeiros dígitos): um contrato com linhas em várias divisões conta em todas, pelo que a soma das 45 divisões (1 054 071 linhas, 81,2 mil M€) excede o total de contratos. Os valores são os declarados na publicação, sem IVA e sem correções de execução. Nomes de empresas normalizados a partir do Portal BASE; alguns grupos aparecem por várias sociedades (por exemplo, DST e DSTelecom), que aqui são somadas apenas quando partilham o mesmo NIF.
Sedes e mapa. As moradas foram confirmadas por pesquisa em diretórios — RNPC/Firmas, GLEIF (LEI) e páginas oficiais das empresas — e geocodificadas com o OpenStreetMap (Nominatim). O mapa mostra as 17 maiores por valor; as posições dentro dos parques de escritórios (Lagoas Park, Quinta da Fonte) foram ligeiramente separadas para que os marcadores não se sobreponham. Roche e Iberdrola usam a morada publicada pela própria empresa. Limites administrativos e geocodificação © OpenStreetMap contributors.
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