Quem vende ao Estado: as maiores empresas da contratação pública, 2021–2025

Equipa Sabemos Studio19/10/20267 min de leituraAnálises

O Estado português contratou 83,6 mil M€ entre 2021 e 2025, em 1 028 960 contratos. As dez maiores adjudicatárias ficaram com 11,3% desse valor e as trinta com 22,9% — mas o retrato do topo é surpreendente: 10 das 30 maiores são farmacêuticas ou fornecedores de material médico, e o primeiro lugar é de uma empresa com um único contrato.

Este artigo apresenta o ranking das maiores empresas por valor e por número de contratos, mostra as áreas de compra que mais pesam — em contratos e em euros — e mapeia, com dados do OpenStreetMap, onde estão sediadas as 17 maiores.

A contratação pública nas mãos de poucos, em números

contratado em cinco anos83,6 mil M€1 028 960 contratos publicados, 2021 a 2025
ficou nas dez maiores empresas11,3%9,5 mil M€ em cinco anos
do valor é construção25,9%21,0 mil M€ em 63 195 contratos
dos contratos são medicamentos31,1%327 672 linhas de CPV na área 33
num único contrato2,0%AVAN Norte, ferrovia de alta velocidade: 1 661 M€

Um mercado de mil milhões por mês

Entre 2021 e 2025, o Estado português publicou 1 028 960 contratos no Portal BASE, no valor de 83,6 mil M€. É mais de mil milhões de euros por mês, todos os meses, durante cinco anos — e a maior parte desse dinheiro foi para um grupo restrito de fornecedores.

As dez maiores adjudicatárias ficaram com 11,3% do valor (9,5 mil M€); as trinta maiores, com 22,9% (19,2 mil M€). Do outro lado há dezenas de milhares de empresas a disputar o resto: entre 2021 e 2025, o Estado contratou com 62 004 adjudicatários diferentes — e as trinta maiores ficaram com quase um quarto do valor.

E há um padrão que salta da lista: 10 das 30 maiores são farmacêuticas ou fornecedores de material médico. O Serviço Nacional de Saúde é o maior comprador do país e compra quase sempre às mesmas multinacionais.

As 12 empresas que mais venderam ao Estado (2021–2025)

Valores contratados, sem IVA. A barra mais à esquerda é um único contrato: a concessão da ferrovia de alta velocidade.

  • AVAN Norte (ferrovia de alta velocidade)1,66 mil M€

    1 contratos · 2,0% do total

  • JANSSEN CILAG FARMACEUTICA1,09 mil M€

    3 731 contratos · 1,3% do total

  • Endesa Energia1,08 mil M€

    1 192 contratos · 1,3% do total

  • PETROGAL968,4 M€

    3 765 contratos · 1,2% do total

  • Ribera Portugal – Parcerias de Cascais881,5 M€

    1 contratos · 1,1% do total

  • ROCHE FARMACEUTICA QUIMICA871,4 M€

    3 720 contratos · 1,0% do total

  • Alstom Ferroviária Portugal788,3 M€

    17 contratos · 0,9% do total

  • Merck Sharp & Dohme724,2 M€

    2 802 contratos · 0,9% do total

  • NOVARTIS FARMA - Produtos Farmacêuticos707,3 M€

    4 578 contratos · 0,8% do total

  • Iberdrola Clientes Portugal689,4 M€

    646 contratos · 0,8% do total

  • MEO - Serviços de Comunicações e Multimédia664,8 M€

    4 392 contratos · 0,8% do total

  • LABORATORIOS PFIZER624,2 M€

    5 926 contratos · 0,8% do total

Portal BASE, índice de contratos do Sabemos Studio · 2021–2025 · contratos com adjudicatário identificado.

Um contrato pode valer mais do que mil compras

O topo da tabela não é feito de quem vende muito, mas de quem vende caro. AVAN Norte (ferrovia de alta velocidade) tem um contrato e 1,7 mil M€ — 2,0% de toda a contratação pública de cinco anos. É a concessão da linha de alta velocidade entre Lisboa e o Porto, assinada em 2025.

O mesmo padrão em três outras posições: Ribera Portugal – Parcerias de Cascais (o hospital público de Cascais em parceria público-privada) tem um contrato de 881,5 M€; a Vialagus, um contrato de 397,2 M€ para transportes públicos; a Scotturb, 538,4 M€ em apenas 12 contratos.

São os contratos de concessão e de parceria: duram décadas, são assinados uma vez e raramente voltam a concurso. Ao lado deles, a farmacêutica JANSSEN CILAG FARMACEUTICA chega ao segundo lugar com 3 731 contratos — uma média de 291 550 € por contrato.

As 20 maiores adjudicatárias do Estado (2021–2025)

#EmpresaNIFContratosValorQuotaÁrea principal
1AVAN Norte (ferrovia de alta velocidade)51840058111 661 M€2,0%Construção e obras públicas
2JANSSEN CILAG FARMACEUTICA5001894123 7311 088 M€1,3%Medicamentos e material médico
3Endesa Energia9802459741 1921 082 M€1,3%Energia e combustíveis
4PETROGAL5006973703 765968 M€1,2%Energia e combustíveis
5Ribera Portugal – Parcerias de Cascais5170914021882 M€1,1%Saúde e acção social
6ROCHE FARMACEUTICA QUIMICA5002338103 720871 M€1,0%Medicamentos e material médico
7Alstom Ferroviária Portugal50027437117788 M€0,9%Construção e obras públicas
8Merck Sharp & Dohme5001913602 802724 M€0,9%Medicamentos e material médico
9NOVARTIS FARMA - Produtos Farmacêuticos5000635244 578707 M€0,8%Medicamentos e material médico
10Iberdrola Clientes Portugal502124083646689 M€0,8%Energia e combustíveis
11MEO - Serviços de Comunicações e Multimédia5046159474 392665 M€0,8%Telecomunicações
12LABORATORIOS PFIZER5001621665 926624 M€0,8%Medicamentos e material médico
13DST – Domingos da Silva Teixeira501489126161621 M€0,7%Materiais de construção
14Scotturb-Transportes Urbanos Lda51106955312538 M€0,6%Material de transporte
15GILEAD SCIENCES5036047041 912533 M€0,6%Medicamentos e material médico
16Gertal500126623701527 M€0,6%Hotelaria e restauração
17Uniself Sociedade de Restaurantes Públicos e Privados SA501323325701523 M€0,6%Hotelaria e restauração
18Alexandre Barbosa Borges500553408249498 M€0,6%Construção e obras públicas
19VIIVHIV HEALTHCARE509117961934497 M€0,6%Medicamentos e material médico
20EDP Comercial - Comercialização de Energia5035045641 133495 M€0,6%Energia e combustíveis

Quem assina mais contratos (2021–2025)

Número de contratos por adjudicatária. Ordem diferente da do valor: quem vende muito barato aparece aqui em cima.

  • MEDTRONIC PORTUGAL7 906

    424 M€ · média de 53 648 €

  • LABORATORIOS PFIZER5 926

    624 M€ · média de 105 340 €

  • NOVARTIS FARMA - Produtos Farmacêuticos4 578

    707 M€ · média de 154 499 €

  • MEO - Serviços de Comunicações e Multimédia4 392

    665 M€ · média de 151 370 €

  • PETROGAL3 765

    968 M€ · média de 257 224 €

  • JANSSEN CILAG FARMACEUTICA3 731

    1 088 M€ · média de 291 550 €

  • ROCHE FARMACEUTICA QUIMICA3 720

    871 M€ · média de 234 258 €

  • SANOFI - PRODUTOS FARMACÊUTICOS3 608

    486 M€ · média de 134 673 €

  • Merck Sharp & Dohme2 802

    724 M€ · média de 258 468 €

  • ASTRAZENECA PRODUTOS FARMACEUTICOS2 540

    372 M€ · média de 146 449 €

  • GILEAD SCIENCES1 912

    533 M€ · média de 278 999 €

  • Endesa Energia1 192

    1 082 M€ · média de 907 508 €

Portal BASE, índice de contratos do Sabemos Studio · 2021–2025.

Quem vende muito e quem vende caro

Comparadas as duas listas, o retrato fica completo. A Medtronic assinou 7 906 contratos (média de 53 648 €) e é apenas a 24.ª por valor; a Janssen tem 3 731 contratos e a maior fatura da farmácia. Já a AVAN Norte tem um contrato e está em primeiro lugar.

É a diferença entre catálogo e obra: material clínico e medicamentos compram-se em milhares de pequenas aquisições ao longo do ano; uma ferrovia, um hospital ou uma rede de transportes compram-se uma vez, por centenas de milhões.

O mesmo se vê nos serviços: Gertal e Uniself, os dois maiores fornecedores de refeições escolares e hospitalares, têm exatamente 701 contratos cada um e valores quase iguais (526,8 M€ e 522,8 M€). É um mercado a dois, com contratos anuais renovados escola a escola.

Mapa de Portugal com as sedes das 17 maiores adjudicatárias: 14 na Área Metropolitana de Lisboa, seis em Oeiras, duas em Braga e uma no Porto
As sedes das 17 maiores adjudicatárias do Estado. Catorze estão na Área Metropolitana de Lisboa — seis delas no concelho de Oeiras, entre o Lagoas Park, a Quinta da Fonte e o Taguspark. Fora da capital: Porto (AVAN Norte) e Braga (DST e Alexandre Barbosa Borges). Sedes confirmadas por pesquisa em diretórios (RNPC, GLEIF) e nas páginas das empresas; coordenadas por geocodificação OpenStreetMap. Limites © OpenStreetMap contributors.

Lisboa e Oeiras: as sedes do dinheiro público

Das 17 maiores adjudicatárias, 14 têm sede na Área Metropolitana de Lisboa e 6 no concelho de Oeiras — três parques de escritórios (Lagoas Park, Quinta da Fonte e Taguspark) albergam Janssen, Pfizer, MSD, Endesa, Novartis e Gertal.

Não é coincidência: são as filiais portuguesas de multinacionais farmacêuticas e energéticas, que se instalam junto aos centros de decisão e aos grandes compradores públicos. A indústria nacional aparece mais longe: DST e Alexandre Barbosa Borges em Braga, AVAN Norte no Porto.

A geografia das sedes não é a geografia da obra. As empreitadas fazem-se no país inteiro, mas os contratos assinam-se em Lisboa — e é aí que se concentram os serviços centrais, os hospitais de referência e as compras agregadas do Estado.

As áreas com mais contratos (2021–2025)

Contratos por divisão de CPV. As divisões somam 1 054 071 linhas — mais do que os 1 028 960 contratos, porque um contrato pode ter linhas em várias áreas.

  • Medicamentos e material médico327 672

    14 955 M€ · maior fornecedor: Janssen Cilag Farmacêutica

  • Segurança, limpeza e serviços a empresas63 805

    3 371 M€ · maior fornecedor: Ronsegur

  • Construção e obras públicas63 195

    21 015 M€ · maior fornecedor: AVAN Norte – Gestão da Ferrovia de Alta Velocidade

  • Reparação e manutenção52 112

    2 419 M€ · maior fornecedor: Somafel

  • Arquitectura e engenharia43 194

    2 377 M€ · maior fornecedor: I-Sete

  • Cultura, desporto e recreio38 292

    787 M€ · maior fornecedor: Estoril Sol (III) Turismo Animação e Jogo S.A.

  • Serviços de TI37 336

    2 988 M€ · maior fornecedor: MEO

  • Equipamento informático31 933

    1 560 M€ · maior fornecedor: —

  • Alimentação e refeições31 744

    1 111 M€ · maior fornecedor: Eurest Portugal Lda

  • Mobiliário e equipamento doméstico28 272

    759 M€ · maior fornecedor: —

Portal BASE, índice de contratos do Sabemos Studio · 2021–2025.

Medicamentos: um terço dos contratos do Estado

A divisão 33 — medicamentos e material médico é a maior de todas por número de contratos: 327 672 linhas de CPV, 31,1% do total, no valor de 15,0 mil M€. É mais do dobro da segunda área (segurança e limpeza, com 63 805) e sete vezes mais do que a construção em número de contratos.

O motivo é o modo de compra: o Estado não compra medicamentos de uma vez, compra ao longo do ano, por lotes, por hospital e por princípio ativo. Resultado: muitas linhas de valor médio baixo, quase sempre das mesmas cinco ou seis multinacionais — Janssen, Roche, MSD, Novartis, Pfizer e Gilead ocupam seis dos dez primeiros lugares do ranking por valor.

Segue-se a segurança e limpeza (divisão 79, 63 805 contratos, 3,4 mil M€) — o mercado dos grandes grupos de segurança privada e de limpeza, contratados ano a ano por câmaras, hospitais e escolas.

Onde está o dinheiro: valor por área (2021–2025)

Mesma base, ordenada por valor. Construção lidera com folga; medicamentos vem logo atrás.

  • Construção e obras públicas21,01 mil M€

    63 195 contratos · 25,9% do valor

  • Medicamentos e material médico14,95 mil M€

    327 672 contratos · 18,4% do valor

  • Energia e combustíveis4,38 mil M€

    12 968 contratos · 5,4% do valor

  • Resíduos e limpeza urbana3,75 mil M€

    23 573 contratos · 4,6% do valor

  • Transportes3,59 mil M€

    20 513 contratos · 4,4% do valor

  • Segurança, limpeza e serviços a empresas3,37 mil M€

    63 805 contratos · 4,2% do valor

  • Material de transporte3,15 mil M€

    21 131 contratos · 3,9% do valor

  • Serviços de TI2,99 mil M€

    37 336 contratos · 3,7% do valor

  • Reparação e manutenção2,42 mil M€

    52 112 contratos · 3,0% do valor

  • Arquitectura e engenharia2,38 mil M€

    43 194 contratos · 2,9% do valor

Portal BASE, índice de contratos do Sabemos Studio · 2021–2025.

Construção: 6% dos contratos, 26% do valor

A construção (divisão 45) é o oposto da farmácia: 63 195 contratos (6,0% do total), mas 21,0 mil M€ — 25,9% de todo o valor contratado. É a área onde um único contrato pode valer mais do que mil compras de material clínico.

Dentro dela, a ferrovia explica a maior parte: a concessão da alta velocidade (AVAN Norte, 1,7 mil M€), a sinalização e o material ferroviário (Alstom, 788,3 M€), a manutenção de vias (Somafel) e as empreitadas de DST, Teixeira Duarte, Mota-Engil, Tecnorém, Marques e Tecnovia Açores.

Depois da construção vêm energia (4,4 mil M€, com Endesa, Iberdrola, Petrogal e EDP), resíduos e limpeza urbana (3,8 mil M€, com Veolia, Port'Ambiente e Suma) e transportes (3,6 mil M€, dominados pelas concessões de autocarros e pela CP). Todas concentradas em poucos operadores.

As dez maiores áreas de compra e os seus líderes

Área (CPV)ContratosValorPeso no valorMaior fornecedor
45 · Construção e obras públicas63 19521,0 mil M€25,9%AVAN Norte – Gestão da Ferrovia de Alta Velocidade
33 · Medicamentos e material médico327 67215,0 mil M€18,4%Janssen Cilag Farmacêutica
09 · Energia e combustíveis12 9684,4 mil M€5,4%PETROGAL
90 · Resíduos e limpeza urbana23 5733,8 mil M€4,6%Veolia Portugal
60 · Transportes20 5133,6 mil M€4,4%Scotturb
79 · Segurança, limpeza e serviços a empresas63 8053,4 mil M€4,2%Ronsegur
34 · Material de transporte21 1313,2 mil M€3,9%Alstom Ferroviária Portugal
72 · Serviços de TI37 3363,0 mil M€3,7%MEO
50 · Reparação e manutenção52 1122,4 mil M€3,0%Somafel
71 · Arquitectura e engenharia43 1942,4 mil M€2,9%I-Sete

O que estes cinco anos mostram

1. Concentração moderada, mas estável. As dez maiores empresas ficam com 11,3% do valor e as trinta com 22,9%. Não é um mercado capturado, mas é um mercado onde o topo não muda: as mesmas farmacêuticas, os mesmos grupos de construção, os mesmos comercializadores de energia.

2. A saúde manda no volume, a construção manda no valor. Medicamentos e material médico são 31,1% dos contratos e 18,4% do valor; construção é 6,0% dos contratos e 25,9% do valor.

3. Poucos contratos, muito dinheiro. As concessões — ferrovia, hospital de Cascais, transportes — valem milhares de milhões em três ou quatro assinaturas. São também os contratos mais difíceis de reabrir: duram 20, 30, 40 anos.

4. As sedes estão em Lisboa. Catorze das dezassete maiores adjudicatárias têm sede na Área Metropolitana de Lisboa. O dinheiro público é gasto em todo o país, mas contrata-se a partir de meia dúzia de parques de escritórios.

Como se lê isto. Universo: contratos publicados no Portal BASE entre 1 de janeiro de 2021 e 31 de dezembro de 2025, no índice de contratos do Sabemos Studio — 1 028 960 contratos e 83,6 mil M€ com valor declarado. O ranking usa o valor contratado por adjudicatária, somando todos os contratos em que a empresa aparece como adjudicatária; a quota é o peso nesse total. As áreas seguem a divisão de CPV (dois primeiros dígitos): um contrato com linhas em várias divisões conta em todas, pelo que a soma das 45 divisões (1 054 071 linhas, 81,2 mil M€) excede o total de contratos. Os valores são os declarados na publicação, sem IVA e sem correções de execução. Nomes de empresas normalizados a partir do Portal BASE; alguns grupos aparecem por várias sociedades (por exemplo, DST e DSTelecom), que aqui são somadas apenas quando partilham o mesmo NIF.

Sedes e mapa. As moradas foram confirmadas por pesquisa em diretórios — RNPC/Firmas, GLEIF (LEI) e páginas oficiais das empresas — e geocodificadas com o OpenStreetMap (Nominatim). O mapa mostra as 17 maiores por valor; as posições dentro dos parques de escritórios (Lagoas Park, Quinta da Fonte) foram ligeiramente separadas para que os marcadores não se sobreponham. Roche e Iberdrola usam a morada publicada pela própria empresa. Limites administrativos e geocodificação © OpenStreetMap contributors.

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