A justiça desarma a tese das tendas e os democratas tomam o Congresso

Sabemos Studio05/11/202615 min de leituraAnálises

O Ministério Público considera as tendas no Rossio «criminalmente irrelevantes» e admite arquivar os processos por desobediência; a Acampada do Porto leva nove propostas a Belém e exige a demissão de Luís Neves. No mesmo dia, o BEI assina 300 milhões para arrendamento, os CTT cortam outra vez o «guidance» e os democratas conquistam as duas câmaras do Congresso dos EUA.

O dia em números

detidos82nas operações da PSP de 20 e 25 de outubro, em Lisboa
do BEI300 M€para construir e reabilitar casas para arrendamento
menos lucro39,8%nos CTT, nos primeiros nove meses do ano
Senado dos EUA54–44projeção com dois lugares ainda por apurar
mortos em Urda69no acidente ferroviário espanhol de 28 de outubro
militares2 800no exercício Koalicja, na Polónia, entre 9 e 22 de novembro

A justiça desarma a tese das tendas

Um despacho do Ministério Público datado de quarta-feira conclui que instalar tendas na praça D. Pedro IV, no Rossio, e aplicar o decreto-lei 310/2002 são atos «criminalmente irrelevantes» e «não podem sustentar uma detenção, medidas de polícia ou o exercício da ação penal». O procurador Luís Gil Caldeira arquivou também a participação da PSP sobre inscrições, pinturas e objetos no pedestal da estátua de D. Pedro IV: não há indícios que permitam identificar autores de um eventual crime de dano.

O inquérito prossegue apenas quanto à desobediência à ordem de dispersão, e mesmo aí o MP admite vir a arquivar. O despacho invoca a decisão do Tribunal Administrativo de Lisboa que autorizou a ativista Renata Cambra a manter a tenda até 24 de novembro e sublinha que deve ser ponderada a proporcionalidade da atuação policial, «já que, em abstrato, os fins não justificam todos os meios». Não foram encontrados indícios de atos de violência contra a polícia imputáveis a pessoas concretas.

O processo abrange os 82 detidos nas ações de 20 e 25 de outubro. A todos foi proposta a suspensão provisória do processo por 45 dias, mediante a entrega de 150 euros a uma instituição particular de solidariedade social; a decisão estava prevista para sexta-feira e fica agora em aberto. O MP pediu às forças policiais os vídeos das operações e lembra que a IGAI está a investigar a regularidade da atuação policial.

Manifestantes pela habitação no Rossio, em Lisboa
Manifestações pela habitação em Lisboa, onde foram detidas 82 pessoas em outubro. Foto: Manuel de Almeida/Lusa
O Ministério Público afasta liminarmente a existência de indícios de violência contra polícias e considera irrelevante criminalmente a montagem das tendas. Deixa em aberto a possibilidade de arquivar os processos por desobediência.
— Ricardo Sá Fernandes, advogado de arguidos, ao Expresso

Porto: nove propostas e um pedido de demissão

A Acampada do Porto pela habitação aprovou por maioria, em assembleia na Praça D. João I, a participação num encontro no Palácio de Belém com o Presidente da República. Os manifestantes levam nove propostas sobre políticas de habitação e vão pedir a António José Seguro que exija a demissão do ministro da Administração Interna, Luís Neves.

Entre as reivindicações está um voto de repúdio claro sobre a violência policial e a exigência de que o Governo se coloque «do lado da Constituição» quanto à legislação pré-constitucional que, dizem, a PSP tem usado para dispersar as manifestações depois das 00h30. A acampada do Porto começou a 10 de outubro; no Rossio, em Lisboa, começou a 17 de outubro.

No mesmo dia, a Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP/PSP) acusou o Governo de «instrumentalizar a ação policial» e de «expor os operacionais no terreno a situações extremas». O sindicato critica os «constantes ziguezagues do MAI» e a «leviandade perante decisões judiciais», e diz que o ónus da crise da habitação está a ser transferido para os polícias.

Acampada do Porto pela habitação na Praça D. João I
Acampada do Porto, na Praça D. João I, que aprova ir a Belém com nove propostas. Foto: Fernando Veludo/Lusa

300 milhões do BEI para pôr casas no arrendamento

O Governo e o Banco Europeu de Investimento assinaram um novo financiamento de 300 milhões de euros para aumentar a oferta de habitação, através da construção e da reabilitação de imóveis destinados a arrendamento. A linha é operada pelo IFRRU 2030, no âmbito do Portugal 2030, e tem duas modalidades: Build-to-Rent, para construção nova, e Renovate-to-Rent, para reabilitação.

O dinheiro chega aos promotores por intermediários financeiros e dirige-se sobretudo a entidades privadas, sem excluir públicas. Segundo o Ministério das Infraestruturas e Habitação, a operação complementa uma linha de 1 340 milhões de euros para habitação acessível e um empréstimo de 1 500 milhões para construção e reabilitação de habitação social — um envelope de 3 140 milhões que, ressalva o ministério, soma três operações e não significa que esteja executado ou desembolsado.

«A parceria com o BEI é um contributo importante para a continuidade do investimento em habitação em Portugal», afirmou o ministro Miguel Pinto Luz. O ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, sublinhou que o acordo procura aumentar a oferta «de forma responsável e equilibrada do ponto de vista orçamental».

Miguel Pinto Luz, ministro das Infraestruturas e Habitação
Miguel Pinto Luz, ministro das Infraestruturas e Habitação. Foto: Rodrigo Antunes/Lusa

CTT: o fim do «minimis» corta o lucro e o «guidance»

As novas regras alfandegárias da União Europeia para o comércio eletrónico — o fim da isenção «de minimis», com uma taxa de três euros em produtos de valor inferior a 150 euros encomendados fora da UE — entraram em vigor no início do terceiro trimestre e mudaram a trajetória dos CTT. O lucro dos primeiros nove meses caiu 39,8%, para 19,8 milhões de euros, e a empresa cortou pela segunda vez o «guidance» para 2026.

O EBIT recorrente recuou 20,5%, para 58,9 milhões de euros, e a empresa espera agora 80 a 85 milhões este ano — contra os 115 milhões de 2025 e o intervalo de 115 a 125 milhões que ainda admitia em julho. As receitas subiram 9,2%, para 994,7 milhões, mas os custos operacionais cresceram mais: 12,1%, para 870,3 milhões.

O grupo liderado por Guy Pacheco fala de um «trimestre desafiante»: o volume de encomendas entregues provenientes de fora da UE caiu 43% entre julho e setembro. «A mudança súbita do ritmo de crescimento penalizou o EBIT, desencadeando ações corretivas imediatas», diz a empresa, que quer acelerar o crescimento não-asiático, gerir preços de forma mais proativa e ajustar custos. A Bolsa reagiu mal: as ações chegaram a cair cerca de 11%.

Os CTT em nove meses

Indicador (jan.–set.)2026Variação
Receitas totais994,7 M€+9,2%
Custos operacionais870,3 M€+12,1%
EBIT recorrente58,9 M€−20,5%
Lucro líquido19,8 M€−39,8%
Guidance EBIT 202680–85 M€era 115–125 M€
Fachada e logótipo dos CTT
Os CTT cortaram pela segunda vez o «guidance» para 2026. Foto: ECO

EUA: uma vaga azul que muda o Congresso

Os democratas conquistaram o controlo da Câmara dos Representantes e do Senado nas eleições intercalares de 3 de novembro, uma vitória que limita os dois últimos anos do mandato de Donald Trump. Segundo as projeções divulgadas pelos jornais portugueses, o Senado ficou em 54 lugares democratas contra 44 republicanos, com dois ainda por apurar — acima dos 51 necessários para a maioria. Na Câmara, os democratas passaram os 218 mandatos precisos para mandar.

As vitórias vieram em território difícil: o Kansas não elegia um senador democrata desde 1932 e a Carolina do Sul desde 1998. A CNN Portugal, citando o Decision Desk da CNN, assinala que apenas duas vezes nos últimos 50 anos o controlo das duas câmaras mudou no mesmo ciclo eleitoral. As contagens continuavam em curso e os números finais ainda não estavam fechados.

O poder tem limites: no Senado são precisos 60 votos para aprovar legislação e Trump mantém o veto. Mas o Congresso dá aos democratas as comissões, o poder de intimar testemunhas e a palavra sobre nomeações judiciais, incluindo uma eventual vaga no Supremo Tribunal. A sondagem à boca das urnas da CNN indicava que mais de seis em cada dez eleitores desaprovavam o Presidente.

Capitólio dos Estados Unidos ao anoitecer
O Capitólio, em Washington: os democratas ficaram com as duas câmaras. Foto: 24 Notícias

Espanha: demissão, 30 milhões e um funeral com data trocada

O ministro espanhol dos Transportes, Óscar Puente, demitiu-se na terça-feira à noite, no fim de uma audição parlamentar sobre o acidente de Urda (Toledo), e invocou o antigo ministro português Jorge Coelho: «A culpa não pode morrer solteira». «Não pode continuar no cargo com dois acidentes desta gravidade em menos de um ano», disse.

A 28 de outubro, dois comboios de alta velocidade com mais de 500 pessoas a bordo colidiram em Urda, a cerca de 150 quilómetros a sul de Madrid: 69 mortos e 110 feridos, 15 deles em estado grave. Foi o segundo acidente mortal com alta velocidade em Espanha este ano, depois do descarrilamento de Adamuz (Córdova), em 18 de janeiro, que matou 46 pessoas e fez 292 feridos. O Governo aprovou 30 milhões de euros de apoios urgentes às vítimas e um plano para reforçar tecnologia, controlo e recursos humanos no sistema ferroviário.

O funeral das 69 vítimas está marcado para a catedral de Toledo, mas a data não é consensual nos jornais desta manhã: o Diário de Leiria e a SIC Notícias dão 12 de novembro, às 19h00; o Notícias ao Minuto, citando o Arcebispado de Toledo, diz que passou para 10 de novembro, à mesma hora, «e não no dia 12, como estava previsto», por razões de agenda das instituições.

Israel procura Governo, a Ucrânia ensaia uma força

Em Israel, a oposição liderada por Gadi Eisenkot está mais perto de formar Governo: Avigdor Lieberman anunciou o apoio dos sete deputados do Yisrael Beitenu à coligação que o Yashar! prepara. O partido de Eisenkot foi a segunda força nas legislativas de 27 de outubro, com 21 lugares, menos seis do que o Likud de Benjamin Netanyahu. O Presidente Isaac Herzog ouviu os partidos e, segundo o seu gabinete, o mandato para formar Governo será atribuído depois das consultas; quem o receber terá 28 dias para apresentar o executivo.

Na Ucrânia, a força europeia de manutenção da paz que poderá ser destacada num cessar-fogo — a Força Multinacional-Ucrânia, com 11 países sob liderança britânica e francesa — poderá retaliar ataques russos, dizem fontes ocidentais ao Guardian: «Claramente, iremos proteger as nossas forças contra qualquer agressão», afirmou um responsável, garantindo que a força será «defensiva por natureza». Entre 9 e 22 de novembro, 2 800 militares, fuzileiros e pilotos ensaiam o destacamento no exercício Koalicja, na Polónia.

A força não faz parte da NATO e conta com pouco ou nenhum apoio dos Estados Unidos, escreve o Guardian, apostando em tecnologia «quase exclusivamente europeia» em vez de depender de sistemas como o Starlink.

Ver em vídeo: as noites no Rossio

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Ver em vídeo: a vaga democrata

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Onde as fontes divergem: no Senado dos EUA, as projeções citadas pelos jornais portugueses foram atualizadas ao longo do dia (de 53–42 com cinco corridas por apurar para 54–44 com duas) — os números finais dependiam da contagem. A data do funeral em Toledo também aparece com duas versões (12 e 10 de novembro). Ambos os casos ficam registados como estavam nas fontes, sem escolher uma versão.

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