Habitação sem acordo, Wall Street em queda e Duarte Lima calado

Sabemos Studio06/11/202619 min de leituraAnálises

As reuniões de Luís Montenegro com o PS e o Chega terminaram sem acordo sobre a lei das rendas: o PS recusa o teto de 2 300 euros da renda «moderada» e a AD acusa-o de negar a realidade. No mesmo dia, Wall Street teve o pior dia desde abril de 2025, Duarte Lima começou a ser julgado em silêncio, a depressão Bruna marcou domingo para chegar e a França parou pela quarta vez neste outono.

O dia em números

teto da renda2 300 €valor da renda «moderada» que o Governo quer consagrar e o PS quer baixar
lucro da CGD1 434 M€até setembro, mais 2,5% do que em 2025; mínimo salarial de 1 800 € em janeiro
Nasdaq−5,52%o Nasdaq 100 caiu 6,36%, o pior dia desde março de 2020
no centro do caso5,2 M€transferência de Rosalina Ribeiro, morta em 2009; julgamento aberto em Sintra
de chuva200 mmacumulados previstos pelo IPMA em zonas montanhosas até 13 de novembro
apoios no Knesset46–56Netanyahu e Eisenkot; são precisos 61 deputados para a maioria

A renda «moderada» de 2 300 euros que ninguém paga

Luís Montenegro recebeu esta quinta-feira, em São Bento, o secretário-geral do PS e o líder do Chega para tentar desbloquear a nova lei do arrendamento. As duas reuniões terminaram sem acordo. José Luís Carneiro saiu a acusar o primeiro-ministro de intransigência e a apontar o ponto que separa os dois partidos: o conceito de renda «moderada», com um teto de 2 300 euros por mês, que o PS quer baixar.

«Quem é que neste país pode pagar uma renda moderada de 2300?», perguntou o socialista, defendendo que a medida não responde às dificuldades da maioria da população. Segundo Carneiro, não foi possível chegar a acordo nem quanto à possibilidade de construir «do zero» uma nova lei do arrendamento, nem quanto ao próprio conceito de renda moderada. «Temos uma visão muito diferente sobre a forma como devemos responder às necessidades de habitação», justificou, acrescentando que o PS não dará «consentimento a uma autorização legislativa com vontade de constituir uma lei ao arrepio dos nossos valores fundamentais».

Do lado do Governo, os líderes parlamentares da AD devolveram a acusação. «É mais fácil dizer não do que trabalhar numa solução», disse o social-democrata Hugo Soares, no fim de uma reunião em que estiveram também os ministros das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, e da Habitação, Miguel Pinto Luz. Para Soares, um partido que exige retirar «tudo o que foi feito até agora» demonstra «uma absoluta negação da realidade» — e lembrou que o atual regime do arrendamento é da responsabilidade de executivos socialistas.

Carneiro saudou, ainda assim, a abertura do primeiro-ministro ao diálogo e disse que a crise da habitação não pode ter uma resposta policial. Montenegro, que anunciou as reuniões na terça-feira, garantiu que estava disponível para ouvir propostas mas recusou entrar num «leilão de propostas». Os encontros acontecem depois de dias de protestos contra a resposta do Governo à crise da habitação.

Luís Montenegro, José Luís Carneiro e André Ventura
Montenegro reuniu-se esta quinta-feira com Carneiro e Ventura para discutir a crise na habitação. Foto: Correio da Manhã
Quem é que neste País pode pagar uma renda moderada de 2300 euros?
— José Luís Carneiro, secretário-geral do PS, à saída da reunião com Luís Montenegro

Duarte Lima: 17 anos depois, o arguido escolheu o silêncio

O julgamento do ex-deputado do PSD Duarte Lima, acusado do homicídio de Rosalina Ribeiro, começou esta quinta-feira à tarde no Tribunal de Sintra, 17 anos depois do crime. O primeiro dia estava reservado para a audição do arguido e de uma testemunha. Duarte Lima identificou-se perante o coletivo de juízes e recusou prestar declarações: «Por ora, e por conselho do meu advogado, não presto declarações».

O tribunal contava ouvir Rosemary Espinola, amiga próxima da vítima e uma das primeiras pessoas a dar indicação do desaparecimento, mas não a conseguiu localizar. «Para já, não temos notícia de que esteja viva», referiu o juiz Carlos Camacho, que preside ao coletivo, admitindo «algumas dificuldades, quer pela via da cooperação internacional, quer pelo contacto direto com as autoridades do Brasil».

A defesa insiste que o crime já prescreveu e entregou na segunda-feira um requerimento nesse sentido: pela legislação brasileira, o homicídio prescreve ao fim de 20 anos, prazo que se reduz para metade quando o arguido tem mais de 70 anos — Duarte Lima tem precisamente 70. O advogado João Barroso Neto defendeu que o processo «chega a julgamento já julgado — não pelo tribunal, mas pela praça pública» e que «é tudo pura ficção». Quis ainda juntar informação clínica para comprovar o estado de saúde do arguido.

Rosalina Ribeiro, viúva do empresário Tomé Feteira, foi assassinada com dois tiros em dezembro de 2009, em Maricá, perto do Rio de Janeiro, e encontrada no dia seguinte em Saquarema, numa estrada de terra batida a cerca de 100 quilómetros do Rio. Para o Ministério Público, o motivo foi uma transferência de 5,2 milhões de euros feita pela vítima para uma conta do antigo líder parlamentar do PSD. Duarte Lima sempre disse que era o pagamento de honorários; a filha de Tomé Feteira sustenta que o dinheiro foi desviado de contas do pai. O julgamento chegou a estar marcado para novembro de 2022 e foi adiado várias vezes, primeiro por falta de notificação das testemunhas no Brasil e depois pela falta das gravações.

Duarte Lima no primeiro dia do julgamento no Tribunal de Sintra
Duarte Lima no primeiro dia do julgamento, no Tribunal de Sintra. Foto: RTP

Bruna chega domingo com chuva forte e ondas de 4 a 5 metros

O IPMA emitiu esta quinta-feira o primeiro comunicado sobre a depressão Bruna, um sistema centrado a norte do arquipélago dos Açores, inserido «numa vasta região depressionária onde se irão formar vários núcleos nos próximos dias». Os primeiros efeitos no continente fazem-se sentir no início da manhã de domingo, 8 de novembro, com a aproximação de um sistema frontal, e o mau tempo deve prolongar-se pelo menos até 13 de novembro.

Estão previstos períodos de chuva «persistente e por vezes forte», que poderão ser acompanhados de trovoada. Os maiores acumulados deverão ocorrer na passagem das ondulações frontais ao longo da semana e podem ultrapassar os 200 milímetros, sobretudo nas zonas montanhosas. O vento sopra do quadrante sul e intensifica-se a partir de domingo, com rajadas até 70 km/h no litoral oeste e nas terras altas.

No mar, a costa ocidental terá ondas de sudoeste com 1 a 2 metros a partir de sábado, a subir para 4 a 5 metros na segunda-feira. Na costa sul do Algarve, o IPMA prevê ondas de sueste com 1 a 1,5 metros no domingo, passando a sudoeste com 2 a 3 metros na segunda-feira. A depressão já está a condicionar o estado do tempo nos Açores e vai afetar também a Madeira, onde os avisos amarelos de chuva e vento foram estendidos até domingo, segundo o dnoticias.pt.

Para já, oito distritos do continente — Viana do Castelo, Porto, Braga, Aveiro, Coimbra, Leiria, Lisboa e Setúbal — estão sob aviso amarelo (o menos grave de uma escala de três) entre as 15h00 de sexta-feira e as 00h00 de sábado, por causa da chuva. O instituto aconselha o acompanhamento das atualizações dos avisos.

Chuva e agitação marítima em Portugal continental
A depressão Bruna traz chuva persistente e agitação marítima a partir de domingo. Foto: RTP

EUA: os democratas preparam o cerco a Trump

Depois de conquistarem o controlo das duas câmaras do Congresso nas eleições de terça-feira, os líderes democratas anunciaram que vão usar os poderes de investigação e de convocação de testemunhas para escrutinar os negócios e os interesses financeiros do Presidente e de pessoas próximas. A investigação preparada tem como alvo a alegada corrupção envolvendo Donald Trump, a família e membros da administração.

Na Câmara dos Representantes, o líder democrata Hakeem Jeffries — que deverá assumir a presidência do órgão em janeiro — não excluiu a possibilidade de avançar com um terceiro processo de destituição. Encarregou os congressistas Robert Garcia, da Califórnia, e Jamie Raskin, do Maryland, de coordenarem a preparação das investigações, procurando ligar a alegada corrupção governamental ao aumento do custo de vida.

Jeffries identificou cinco prioridades de investigação, entre as quais os negócios da família Trump, a atuação da administração no caso do criminoso sexual Jeffrey Epstein e as operações do Serviço de Imigração e Alfândegas (ICE). Outros responsáveis democratas querem olhar para projetos imobiliários associados ao Presidente — incluindo a construção de um salão de baile na Casa Branca — e para o envolvimento da família em negócios de recursos minerais. No Senado, Richard Blumenthal anunciou a intenção de examinar os negócios da família a partir da subcomissão permanente de investigações da Comissão de Segurança Interna.

Ver em vídeo: os EUA depois das intercalares

Vídeos e posts sobre as notícias deste dia.

Israel: os ultraortodoxos deixam Netanyahu a 46 apoios

As eleições legislativas de 27 de outubro terminaram sem maioria clara e o Presidente israelita, Isaac Herzog, está a receber esta semana os partidos para as consultas que decidem quem tem mandato para formar Governo. Esta quinta-feira recebeu o Judaísmo Unificado da Torá (JUT), parceiro da coligação cessante de Benjamin Netanyahu e membro do seu primeiro gabinete, em 1996. A resposta foi seca: «A fação do Judaísmo Unificado da Torá não recomendou qualquer deputado para formar Governo», anunciou a presidência israelita.

Em 2022, o JUT tinha recomendado Netanyahu. O partido, um dos maiores entre os ultraortodoxos a par do Shas — o JUT tem base asquenaze, o Shas representa os sefarditas —, exige a regularização do estatuto dos estudantes da Torá e opõe-se a qualquer recrutamento militar para os religiosos. «Queremos que, em qualquer Governo a ser formado, o elemento prévio ou imediato seja a regularização do estatuto dos estudantes da Torá», disse o deputado Isaac Pindrus no encontro com Herzog. Netanyahu apoiou esses esforços nos últimos anos, mas nunca conseguiu aprovar a lei que consagra a isenção.

O efeito aritmético é imediato: são precisos 61 deputados para a maioria no Knesset. O bloco de Netanyahu obteve 53 assentos nas eleições e a aliança de Gadi Eisenkot 48. Com a abstenção do JUT, os apoios esperados para Netanyahu descem para 46, enquanto Eisenkot, que recebeu na quarta-feira o apoio da lista árabe Raam, contabiliza 56 recomendações. Faltava ouvir a Lista Unificada, a principal formação árabe, com 11 deputados, que ainda não anunciou a posição. Herzog previa concluir as consultas na quinta-feira à noite.

França: o quarto dia de greve e a conta que não fecha

A França viveu esta quinta-feira o quarto dia nacional de protestos deste outono. Sindicatos, estudantes e funcionários públicos saíram à rua para exigir aumentos salariais, justiça fiscal e melhores serviços públicos. Pelas 13h00, o Ministério do Interior contabilizava 270 mil manifestantes em 180 marchas fora de Paris, enquanto a CGT indicava mais de 250 mil participantes em 73 cidades. Estavam mobilizados cerca de 70 mil polícias e gendarmes, 81 liceus estavam bloqueados e 15,81% dos professores aderiram à greve.

Em Marselha, milhares de pessoas marcharam dos Réformés até à Place Castellane e 17 estações de metro foram encerradas. Em Nantes, os organizadores falaram em 30 mil manifestantes, contra uma estimativa policial de 24 mil. Em Paris, houve tensões junto ao liceu Honoré-de-Balzac, no 17.º bairro, onde a polícia usou gás lacrimogéneo para dispersar estudantes que protestavam contra a falta de recursos na educação; a principal marcha sindical partiu da Place de la République em direção à Place de la Nation.

A contabilidade do dia não é consensual. O título da peça da Euronews fala em «mais de 600.000 pessoas», mas o corpo do texto, às 13h00, dava os 270 mil do Ministério do Interior e os mais de 250 mil da CGT — números parciais, a meio do dia e sem Paris somado. Ficam os dois registos, sem escolher um.

Manifestação em França durante a greve nacional
Quarto dia nacional de protestos em França: 270 mil manifestantes às 13h00, segundo o Ministério do Interior. Foto: Euronews

CGD: 1 434 milhões de lucro e um salário mínimo de 1 800 euros

A Caixa Geral de Depósitos fechou os primeiros nove meses do ano com 1 434 milhões de euros de lucro, mais 2,5% do que no mesmo período de 2025. O volume de negócios cresceu 7%, com «um dos maiores crescimentos da Caixa» na atividade com empresas e famílias e um recorde na produção de crédito à habitação, que superou 5 800 milhões de euros — mais 41% do que em igual período de 2025.

O crédito a clientes em Portugal chegou a cerca de 56 900 milhões de euros, mais 12% num ano, e a carteira de habitação a aproximadamente 31,6 mil milhões. Os recursos de clientes no país totalizaram 105,3 mil milhões, com um crescimento de 2% em 2026. A margem financeira baixou 20 milhões, para 1 895 milhões (−1,1%), mas o banco sublinha que setembro completou o terceiro trimestre consecutivo de recuperação.

Na apresentação dos resultados, Paulo Macedo anunciou que a Caixa vai processar a partir de sexta-feira um aumento salarial de 3% para todos os trabalhadores e que fechou com os sindicatos da Febase um aumento de 2,5% para 2027 — o primeiro banco a chegar a acordo. O STEC, que queria mais do que 3%, não subscreveu, mas o aumento aplica-se a todos. A partir de 1 de janeiro, garantiu, «todos os trabalhadores vão ganhar, no mínimo, 1 800 euros», dos estagiários aos contínuos. E avisou que o problema da habitação «vai demorar anos» a resolver: «não é para resolver numa legislatura».

Wall Street: o pior dia desde abril de 2025

Os investidores fugiram das tecnológicas por receio de que os democratas, agora com o Congresso nas mãos, apertem o cerco à inteligência artificial. O S&P 500 desceu 4,36%, para 7 353,73 pontos — a pior sessão desde abril de 2025, quando Donald Trump anunciou o pacote de tarifas. O Dow Jones recuou 3,44% para 51 523,06 e o Nasdaq Composite afundou 5,52% para 24 315 pontos. O Nasdaq 100 caiu 6,36%, o pior dia desde março de 2020, e o índice de semicondutores de Filadélfia tombou 12,79%. Segundo o Jornal de Negócios, foram apagados 2,3 biliões de dólares de valor de mercado.

As fabricantes de chips lideraram as descidas: a Micron caiu 17,46% (pressionada também pela pausa nos planos de uma fábrica em Taiwan), a AMD 17,26%, a ARM 13,08%, a Intel 10,33% — num mês em que as ações já desvalorizaram mais de 55% —, a Qualcomm 9,49% e a Nvidia 9,26%. A Tesla perdeu 10,77% e a SpaceX 9,05%. O Nasdaq fechou mais de 10% abaixo do máximo histórico de 6 de outubro, confirmando uma correção técnica.

A reviravolta foi rápida: na quarta-feira, os mesmos índices tinham festejado a vitória democrata, com o Dow Jones a registar a melhor sessão desde 9 de abril de 2025. O receio agora é que o escrutínio político chegue aos interesses de Silicon Valley, que foram largamente poupados nos dois primeiros anos do mandato de Trump. Elon Musk, o maior doador das intercalares, apostou sobretudo na corrida ao Senado pelo Texas, onde o republicano Ken Paxton foi derrotado pelo democrata James Talarico.

Wall Street, 5 de novembro

ÍndiceFechoVariação
S&P 5007 353,73−4,36%
Dow Jones51 523,06−3,44%
Nasdaq Composite24 315,00−5,52%
Nasdaq 100—−6,36%
SOX (semicondutores)—−12,79%
Ecrã com cotações em Wall Street
O Nasdaq fechou mais de 10% abaixo do máximo de 6 de outubro. Foto: Jornal de Negócios

Ver em vídeo: a crise da habitação

Vídeos e posts sobre as notícias deste dia.

Onde as fontes divergem: a EDP anunciou lucro de 1 191 milhões de euros até setembro, uma subida de 22%, segundo a RTP e o ECO; o Jornal de Negócios escreve 1 194 milhões e 25%. Na França, o título da Euronews fala em mais de 600 mil manifestantes, mas o corpo da peça dá 270 mil (Ministério do Interior) e mais de 250 mil (CGT) às 13h00. Os dois casos ficam registados como estavam nas fontes, sem escolher uma versão.

Hashtags do dia

#Habitação · #LeiDasRendas · #WallStreet · #DuarteLima · #Israel · #França

Lê-nos primeiro no GoogleAdiciona o Sabemos como fonte preferida e as nossas análises passam a aparecer destacadas na pesquisa e no AI Mode.

Abre as preferências de pesquisa do Google e escolhe o Sabemos. Funciona com a conta Google no telemóvel ou no computador.

Nós sabemos e tu?

O IQ OS cruza notícias com contratos públicos, empresas e autarquias. Os dados que estão por trás das manchetes.