Habitação em Belém, 69 mortos em Toledo e a Alphabet 13% mais barata

Sabemos Studio30/10/202610 min de leituraAnálises

Seguro ouviu os partidos e o consenso ficou no diálogo; Montenegro diz que os manifestantes não têm representantes e a CGTP marca rua para 21 de novembro. Lá fora, Toledo conta 69 mortos, Israel fica sem maioria e a Alphabet arrasta Wall Street. O BCE mantém os juros nos 2,50%.

Habitação em Belém: acordo sobre o diálogo, desacordo sobre a lei

O Presidente da República recebeu esta quinta-feira, no Palácio de Belém, os partidos com assento parlamentar para falar de habitação e coesão social — um dia depois de o Orçamento do Estado para 2027 ter passado na generalidade com a abstenção do PS. À saída, todos concordavam que é preciso dialogar. O desacordo continua a ser sobre a lei do arrendamento.

O PS pediu «humildade democrática» ao Governo e voltou a exigir que o Executivo «deixe cair» a proposta de autorização legislativa que revê o regime de arrendamento urbano, aprovada na generalidade com a abstenção do Chega e agora em discussão na especialidade. José Luís Carneiro levou um pacote: garantia pública para proprietários que ponham casas no mercado de arrendamento, um serviço nacional de habitação acessível, moratória para os contratos que expiram até ao fim do ano, mobilização de imóveis do IHRU para habitação municipal, isenção de mais-valias na venda de casas destinadas a habitação e agravamento do IMT para quem não tem residência em Portugal e compra casa que não seja para viver.

Do lado do Governo, a vice-presidente do PSD, Leonor Beleza, repetiu que o partido está «disponível para conversar» sobre o conteúdo da lei e chamou «momento relevante» à viabilização do Orçamento por cinco partidos (PSD e CDS-PP a favor, PS, PAN e JPP abstidos). O líder parlamentar, Hugo Soares, escusou-se a comentar negociações em curso. O CDS-PP apelou à oposição para aproveitar a especialidade e negou que o Executivo esteja desgastado.

O Chega disse que o terreno do acordo é o Orçamento e não a lei das rendas: André Ventura quer de volta as deduções ao crédito à habitação que existiam até 2011 e dedução no IRS das rendas acima do valor que o Governo considera moderado. A IL falou de um «chão comum» na habitação pública, na simplificação e nos impostos. Livre e PCP foram mais longe: para Isabel Mendes Lopes, a lei «não é uma lei consensual» e tem de cair; para Paulo Raimundo, os problemas não resultam da falta de consensos, mas dos «consensos que têm estado estabelecidos».

Enquanto as audiências decorriam, mais de mil profissionais da Justiça assinavam uma carta aberta enviada à Presidência contra a dispersão, pela PSP, das manifestações com tendas em Lisboa e no Porto.

Reunião no Palácio de Belém entre o Presidente da República e os partidos
Belém, 29 de outubro: o Presidente da República ouviu os partidos sobre habitação e coesão social. Foto: ECO

Montenegro: «não há um corpo representativo» entre os manifestantes

Luís Montenegro estava a visitar uma escola no Sátão, em Viseu, quando lhe perguntaram pelos protestos pela habitação. O primeiro-ministro justificou a ausência do Governo nas ruas com a falta de interlocutor: entre os manifestantes não há «uma organização, um corpo dirigente, um corpo representativo», disse, acrescentando que o Executivo fala «com os representantes do povo, em primeiro lugar».

Reconheceu o direito de manifestação e disse saber «distinguir os manifestantes, que não são todos iguais», mas recusou a ideia de um Governo parado: apontou o Porta 65 e os apoios à compra da primeira casa, falou de «um problema estrutural acumulado ao longo dos anos» e garantiu que «estamos a dar resposta». Sobre a negociação com os partidos, deixou o recado: as ideias que vão vingar serão as do executivo.

CGTP marca manifestação para 21 de novembro e pressão no dia do Orçamento

A CGTP anunciou para 21 de novembro, sábado, uma «grande manifestação nacional» em Lisboa e uma concentração junto à Assembleia da República a 24 de novembro, dia da votação final do Orçamento. No comunicado, a central fala em recorrer «a todas as formas de luta que a situação vier a impor, incluindo a possibilidade da greve geral»: não convocou uma greve geral, mas mantém a ameaça em cima da mesa.

As contas que leva para a rua: aumentos de pelo menos 15%, com um mínimo de 150 euros, e o salário mínimo nacional nos 1 100 euros em janeiro de 2027. No mesmo dia, a ministra do Trabalho, Rosário Palma Ramalho, defendeu que o reajuste de 50 euros previsto para 2027 «não é pouco» e que o acordo em vigor garante um aumento de 34% no salário mínimo até ao fim da legislatura. A Frente Comum já tinha marcado greve na administração pública para 20 de novembro.

Toledo: 69 mortos e uma atleta de 24 anos entre as vítimas

O balanço mantém-se: 69 mortos e dezenas de feridos no choque de quarta-feira entre um comboio da Renfe e uma composição da Iryo que estava parada na linha de alta velocidade entre Madrid e Sevilha, perto de Urda, em Toledo. Na quinta-feira, o Governo espanhol comunicou um número diferente e corrigiu-o depois, voltando aos 69.

Entre as vítimas confirmadas está Julieta Gallego, 24 anos, saltadora em comprimento do AD Sprint, de Madrid, com melhor marca de 5,90 metros no Campeonato de Espanha de sub-23 em pista coberta, em 2023. A federação espanhola de atletismo confirmou a morte e o clube cumpre esta quinta-feira um minuto de silêncio nas pistas de Paracuellos e Santa Ana.

Destroços do acidente ferroviário em Urda, Toledo
Toledo, Urda: o choque entre dois comboios na linha Madrid-Sevilha fez 69 mortos e dezenas de feridos. Foto: Frame AP / Correio da Manhã

Israel: o bloco de Netanyahu fica abaixo dos 61 lugares e fala em fraude

Com cerca de 90% dos votos apurados, o bloco de Benjamin Netanyahu estava esta quinta-feira nos 53 lugares, a oposição liderada por Gadi Eisenkot nos 48 e os partidos liderados por árabes nos 19 — num total de 120, com a maioria fixada nos 61. O bloco do primeiro-ministro, que governa Israel de forma intermitente desde 1996, fica aquém da maioria e depende de terceiros para governar.

A resposta foi acusar os partidos árabes de fraude e de interferência estrangeira. Numa publicação no X, Netanyahu citou o Likud: «As eleições no Estado de Israel foram roubadas por partidos árabes que apoiam o terrorismo e a eliminação do Estado judaico através de graves crimes de suborno, ameaças, violência, falsificações e utilização de software proibido para mobilizar eleitores.» Nem ele nem os aliados apresentaram provas públicas.

A Comissão Central de Eleições pediu ao Shin Bet que investigasse alegadas interferências estrangeiras, mas, segundo a AP, o pedido não acusava especificamente os partidos árabes e a comissão disse não ter conhecimento de fundamentos para violações sistemáticas da integridade eleitoral. O Ra'am de Mansour Abbas rejeitou as acusações («não há nada») e a Joint List acusou Netanyahu de «trabalhar para roubar as eleições». O Qatar classificou as alegações de «ridículas e perigosas». O presidente Isaac Herzog pediu uma investigação completa e avisou contra a estigmatização de toda a comunidade árabe do país.

Os resultados oficiais têm de estar certificados até 4 de novembro. A Knesset toma posse a 10 de novembro e é Herzog quem decide a quem pede para formar governo. Se as tentativas falharem, Israel pode ir a novas eleições no início do próximo ano.

Knesset: a projeção com 90% dos votos apurados

BlocoLugares projetados
Bloco de Netanyahu (Likud e aliados)53
Oposição liderada por Gadi Eisenkot48
Partidos liderados por árabes19
Total120
Cartazes eleitorais do Likud em Israel
Israel: o Likud de Netanyahu contesta os resultados e pede investigação ao Shin Bet. Foto: Euronews

Bósnia: helicóptero italiano da EUFOR cai e faz quatro mortos

Um helicóptero CH-47 Chinook italiano que participava na operação EUFOR Althea caiu esta quinta-feira numa zona desabitada junto a Gorica, no distrito de Brčko, na fronteira com a Sérvia. A agência italiana ANSA, citada pelo Observador, dá conta de quatro mortos e 12 feridos; o Correio da Manhã, com a AP, falava ao início da noite em «pelo menos três» mortos e 12 feridos, um deles em estado crítico — foi o presidente do distrito, Siniša Milić, quem avançou primeiro o número de três.

Testemunhas e vídeos partilhados nas redes sociais mostram o aparelho a voar baixo e a começar a rodar sobre si próprio antes de se despenhar. A EUFOR abriu uma investigação e pediu que não se especule sobre a nacionalidade e a identidade das vítimas; o Ministério da Defesa italiano escusou-se a acrescentar informação enquanto não houver dados precisos sobre o estado do pessoal. A comunicação social local fala de militares do contingente italiano e também de civis entre as vítimas. É o acidente mais grave da missão europeia desde 2008, quando um helicóptero macedónio caiu e matou 11 pessoas.

Helicóptero militar italiano CH-47 Chinook da missão EUFOR na Bósnia
Brčko, Bósnia: helicóptero CH-47 Chinook da EUFOR caiu em zona desabitada. Foto: AP / Correio da Manhã

BCE: juros em 2,50% e o choque energético ainda a caminho

O Banco Central Europeu manteve as três taxas diretoras: 2,50% na facilidade de depósito, 2,65% nas operações principais de refinanciamento e 2,90% na facilidade de cedência de liquidez. A decisão era esperada pelo mercado e segue-se ao agravamento decidido em setembro.

No comunicado, o Conselho de Governadores justifica a cautela com a energia: «Os preços dos produtos energéticos continuaram a subir, representando riscos em sentido ascendente para as perspetivas de inflação e em sentido descendente para as perspetivas de crescimento.» O BCE nota que os efeitos do choque energético ainda não se fizeram sentir por completo, que a inflação subjacente permaneceu globalmente estável e que não se verifica, nesta fase, uma resposta significativa dos salários.

Alphabet afunda 13% e leva Wall Street para o vermelho

A Alphabet, dona da Google, caiu cerca de 13% depois de vendas dececionantes, e a dúvida voltou ao mercado: os milhares de milhões investidos em inteligência artificial vão gerar retorno suficiente? O Nasdaq Composite recuou 1,38% para 26 184,72 pontos, o S&P 500 perdeu 0,30% para 7 720,39 e o Dow Jones caiu 0,25% para 52 342,56.

A sessão não foi de fuga generalizada: mais de 400 cotadas do S&P 500 subiram, num dia de rotação para fora das tecnológicas. «Estamos agora a ver quem está a investir de forma racional em IA e quem não está», resumiu Richard Reyle, da Questar Capital Partners, citado pela Bloomberg. A Microsoft, que apresentou resultados acima do esperado, teve procura muito elevada numa emissão de obrigações de 25 mil milhões de dólares e ainda assim fechou a perder cerca de 0,2%.

O pano de fundo macro também pesou: um dia depois de a Fed ter mantido as taxas, soube-se que a economia norte-americana cresceu no terceiro trimestre ao ritmo mais rápido num ano e que o PCE, a medida de inflação preferida da Fed, subiu 0,5% em setembro — a maior subida em seis meses.

O dia em números

mortos em Toledo69choque de comboios em Urda, quarta-feira
mortos na Bósnia4helicóptero da EUFOR; 12 feridos
lugares de Netanyahu53de 120; a maioria são 61
juro do BCE2,50%taxa de depósito, inalterada
queda da Alphabet13%Nasdaq recuou 1,38%
manifestação da CGTP21 novLisboa; AR a 24 de novembro
Não há uma organização, um corpo dirigente, um corpo representativo.
— Luís Montenegro, primeiro-ministro, sobre os manifestantes pela habitação (RTP)

Contas que ainda se mexem: o balanço da Bósnia varia entre três mortos (autoridades locais, citadas pela AP) e quatro (ANSA); em Toledo, o Governo espanhol corrigiu para baixo uma comunicação anterior e o número mantém-se nos 69; em Israel, os lugares são projeções com cerca de 90% dos votos apurados e só ficam fechados com a certificação oficial, prevista até 4 de novembro.

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