Galp e EDP: o mesmo lucro recorde, duas histórias diferentes — e 767 milhões em contratos públicos

Sabemos Studio24/10/20267 min de leituraAnálises

As duas maiores energéticas portuguesas fecharam 2025 com lucros quase iguais: 1.154 e 1.150 milhões de euros. Em 2026 separaram-se — a Galp subiu 57% em bolsa com o petróleo caro, a EDP vale mais 17% com menos lucro no semestre e um plano de investimento cortado para metade. Juntas somam 767 milhões em contratos com o Estado desde 2021.

Empate em 2025, divergência em 2026

A Galp fechou 2025 com 1.154 milhões de euros de lucro, o melhor da sua história. A EDP fechou o mesmo ano com 1.150 milhões — quatro milhões de diferença em mais de mil milhões. Duas empresas diferentes, o mesmo resultado.

Em 2026 separaram-se. A Galp lucrou 812 milhões no primeiro semestre, mais 44%, e vale hoje +56,7% do que no início do ano. A EDP lucrou 709 milhões no mesmo período, menos 7%, e sobe 17,1% em bolsa. Uma apanhou a onda dos preços do petróleo; a outra vive do preço da electricidade, que caiu na Península Ibérica.

A parte que raramente entra na mesma frase: as duas são também fornecedoras do Estado. Desde 2021, a EDP assinou 1.268 contratos com entidades públicas no valor de 582,5 milhões; a Galp, 569 contratos e 184,1 milhões.

Os números

lucro Galp 20251.154 M€recorde histórico
lucro EDP 20251.150 M€+44% face a 2024
contratos EDP582,5 M€1.268 contratos, 2021-2026
contratos Galp184,1 M€569 contratos, 2021-2026

As duas em paralelo

GalpEDP
Lucro 20251.154 M€1.150 M€
Lucro 1.º sem. 2026812 M€ (+44%)709 M€ (−7%)
Bolsa em 2026*+56,7%+17,1%
Orientação para 2026EBITDA 4,0 mM€lucro 1,3 mM€
Contratos públicos184,1 M€ / 569582,5 M€ / 1.268

Galp: o petróleo paga as contas

O lucro da Galp em 2026 não vem de vender gasóleo a portugueses. Vem de extrair e refinar num ano de guerra no Médio Oriente e de fecho do Estreito de Ormuz, que empurrou os preços do crude.

O próprio ministro da Economia, Manuel Castro Almeida, o disse no Parlamento em setembro: para a Galp, "a refinação representa uma pequena parte dos negócios" e o lucro vem sobretudo da exploração. É a explicação técnica para um fenómeno político — a empresa que fornece combustível ao país ganha mais quando o combustível fica caro.

Os números do terceiro trimestre confirmam a dimensão do vento: a margem de refinação atingiu 33,8 dólares por barril, mais 256% do que no mesmo período de 2025 e um recorde trimestral. A administração subiu a orientação de EBITDA para 4 mil milhões de euros em 2026, quando antes apontava para 2,6 mil milhões como mínimo.

Com o dinheiro, a empresa faz três coisas: paga dividendo — 0,64 euros por ação, com proposta de aumento de 10% na assembleia de 2027 —, recompra ações (o capital já foi reduzido para 737 milhões de títulos) e reinveste na Namíbia, onde vendeu 40% do campo de Mopane à TotalEnergies, que passou a operar o activo. A Galp ficou com 40% de um campo que ainda não produz.

EDP: menos lucro, mais promessa

A EDP está no lado oposto do ciclo. Com os preços da electricidade mais baixos em Portugal e Espanha, o lucro caiu 12% no primeiro trimestre e 7% no semestre. Em Setembro, reviu a orientação em alta: espera 1,3 mil milhões de lucro em 2026, mais 6%.

O motor da recuperação é a EDP Renováveis, que passou de prejuízos de 556 milhões em 2024 para 216 milhões em 2025 e 184 milhões no primeiro semestre de 2026, mais 96%. A geração do grupo nos primeiros nove meses foi de 48,3 TWh, com 92% renovável — 46% eólica, 26% hídrica, 20% solar — e a bombagem a crescer 20%.

A parte menos falada é a disciplina de capital: a EDP cortou o plano de investimento para 12 mil milhões até 2028, menos de metade do plano anterior, e apostou nas redes — 550 milhões no primeiro semestre, mais 24%. É uma empresa a crescer menos em capacidade e mais em rentabilidade.

Há um risco herdado: o Ministério Público estimou em 335 milhões os impostos devidos pela venda de seis barragens, num negócio de 2 mil milhões. A investigação foi arquivada em Novembro de 2025 sem ilícito fiscal, mas a EDP não constituiu provisão para esse valor. O processo não está encerrado do lado tributário.

As contas do terceiro trimestre são divulgadas a 6 de Novembro.

Contratos públicos por ano (milhões de euros)

AnoGalpEDP
2021269 / 69,2270 / 119,3
202283 / 34,3243 / 87,3
202367 / 12,6170 / 74,2
202456 / 35,7223 / 84,9
202554 / 26,6224 / 129,9
2026*40 / 5,7138 / 86,8

Quem compra energia ao Estado (ou vende ao Estado)

A EDP vende electricidade a câmaras, hospitais e serviços públicos: o maior contrato do período é de 18 milhões com as Infraestruturas de Portugal, para uma subestação de tracção; seguem-se 16,6 milhões com a mesma entidade, 10,9 milhões com a Câmara da Maia e 10,3 milhões com Oeiras para iluminação pública.

A Galp fornece combustíveis e gás: 28,1 milhões à Carris, 16,4 e 10,8 milhões à EDA (Electricidade dos Açores) para gasóleo das centrais térmicas, 8,9 milhões à Câmara de Viseu. Os compradores mais frequentes são a Marinha (49 contratos), a GNR (14) e a Autoridade Tributária (12).

E há uma empresa que aparece do lado oposto da factura: a REN, que compra equipamento para a rede — 479 contratos e 1.437 milhões desde 2021, com a Grid Solutions, a Siemens e a Hitachi Energy. Não é a vender energia ao Estado; é a construir a infraestrutura por onde ela passa.

Porque isto é política e não só contabilidade

Quando a Galp anunciou 812 milhões no semestre, o Governo estava a discutir a prorrogação do desconto no ISP aos combustíveis. O país subsidia o preço na bomba e a empresa que fornece o combustível apresenta lucro recorde: é a combinação que produz indignação, como escreveu o ECO em Setembro.

A resposta oficial é técnica e defensável: o lucro vem da extracção, não da refinação nem da distribuição em Portugal. Mas a percepção pública não distingue margens de upstream de margens de retalho, e é a percepção que faz política.

Na EDP o debate é outro: preços da electricidade, rendas das renováveis e o imposto sobre a venda das barragens. São duas empresas privadas com obrigações de serviço público, e o Estado é simultaneamente regulador, comprador e o decisor político sobre preços e impostos.

O que estes números não dizem

Contrato público não é subsídio. Quase tudo o que está aqui é fornecimento comercial: electricidade para um município, gasóleo para uma central nos Açores. O Estado paga um serviço que consome.

Preço contratual não é receita certa. Em acordos-quadro é um tecto; em contratos plurianuais é o valor total, não o do ano.

A contagem depende do nome. Filtrei pelo nome do adjudicatário (Galp, Petrogal, EDP). Empresas do grupo com nomes que não contenham essas palavras ficam de fora, e contratos de terceiros que mencionem a Galp no objecto podem entrar. Os totais são, por isso, um piso, não um censo.

Os lucros não são comparáveis linha a linha. A Galp beneficia de preços de crude; a EDP sofre com preços de electricidade baixos. O mesmo ano, sinais contrários.

Fontes: contas anuais e semestrais das empresas, comunicados à CMVM, dados operacionais do 3.º trimestre, notícias do ECO, Observador, Jornal de Negócios, RTP e TSF, e contratos públicos do portal BASE indexados no IQ OS (consulta por nome do adjudicatário, celebração desde 1/1/2021, dados até outubro de 2026). Cotações de 23/10/2026. Análise informativa, não é recomendação de investimento.

Hashtags do dia

#Galp · #EDP · #Energia · #Empresas · #Bolsa · #ContratosPublicos · #Portugal

Nós sabemos e tu?

O IQ OS cruza notícias com contratos públicos, empresas e autarquias. Os dados que estão por trás das manchetes.