O que custa uma junta de freguesia: presidentes, vogais e técnicos
As juntas de freguesia não são só presidentes: cada uma tem entre 2 e 6 vogais, e dois deles são secretário e tesoureiro. Em Gaia, são 94 vogais e 24 presidentes. Se todos estivessem em permanência, a estrutura custaria 3 513 340 € por ano.
Este artigo conta as pessoas, compara os três níveis de custo e mostra o que falta saber sobre o pessoal das juntas.
As juntas de Gaia por dentro
Uma junta não é só o presidente
Cada uma das 24 juntas de freguesia de Gaia tem um presidente e entre 2 e 6 vogais, conforme o número de eleitores. Ao todo, são 94 vogais e 24 presidentes: 118 pessoas com mandato executivo, sem contar com os membros das assembleias de freguesia.
Se todos esses vogais estivessem em regime de permanência, a estrutura política das juntas custaria 3 513 340 € por ano — 13,11 € por eleitor, 5,5 vezes o custo do executivo municipal de Gaia (636 269 €).
É um teto legal, não a despesa real: a maioria das juntas só tem o presidente a tempo inteiro. Mas mostra a ordem de grandeza de uma estrutura que quase nunca é discutida.
Quantas pessoas tem uma junta
| Escalão de eleitores | Vogais | Freguesias em Gaia | Pessoas no executivo |
|---|---|---|---|
| 20 mil ou mais | 6 | 4 | 28 |
| 10 a 20 mil | 4 | 7 | 35 |
| 5 a 10 mil | 4 | 8 | 40 |
| menos de 5 mil | 2 | 5 | 15 |
O presidente: o único que é sempre remunerado
O presidente da junta tem vencimento fixado por lei: 25% do vencimento do Presidente da República a partir de 20 mil eleitores, 22% entre 10 e 20 mil, 19% entre 5 e 10 mil e 16% abaixo disso. Acresce a despesa de representação, de 30% do vencimento, paga 12 vezes por ano.
Só os 24 presidentes custam 731 342 € por ano — 2,73 € por eleitor. O mais caro é o de Mafamude, com 37 621 €; o mais barato é o de Sermonde, com 24 077 €.
Os vogais: 35 mil euros por ano cada um
Um vogal em regime de permanência tem a mesma remuneração base do presidente da sua junta — é a linha «Presidentes (ou vogais por atribuição do Presidente)» da tabela oficial — e uma despesa de representação de 20%, em vez dos 30% do presidente (art. 5.º-A da Lei n.º 11/96).
Na prática, isso dá 35 056 € por ano por cada vogal em permanência nas freguesias com 20 mil ou mais eleitores, 30 849 € entre 10 e 20 mil e 22 435 € abaixo de 5 mil. Seis vogais em permanência numa junta grande custam 210 333 € por ano.
O cenário alternativo é o de não permanência: o secretário e o tesoureiro recebem uma compensação de 80% da do presidente (3 941 € por ano cada um nos concelhos grandes) e os restantes vogais recebem senhas de presença de 28,74 € por sessão, sem vencimento mensal.
Custo anual da estrutura política, por freguesia
Teto legal: presidente e todos os vogais em regime de permanência, com 14 vencimentos e 12 meses de representação.
- Mafamude248 mil €
6 vogais + presidente
- Santa Marinha248 mil €
6 vogais + presidente
- Canidelo248 mil €
6 vogais + presidente
- Oliveira do Douro248 mil €
6 vogais + presidente
- Pedroso157 mil €
4 vogais + presidente
- Vilar de Andorinho157 mil €
4 vogais + presidente
- Arcozelo157 mil €
4 vogais + presidente
- Vilar do Paraíso157 mil €
4 vogais + presidente
- Canelas157 mil €
4 vogais + presidente
- São Félix da Marinha157 mil €
4 vogais + presidente
- Gulpilhares157 mil €
4 vogais + presidente
- Madalena135 mil €
4 vogais + presidente
- Avintes135 mil €
4 vogais + presidente
- Valadares135 mil €
4 vogais + presidente
- Grijó135 mil €
4 vogais + presidente
- Serzedo135 mil €
4 vogais + presidente
- Perosinho135 mil €
4 vogais + presidente
- Sandim135 mil €
4 vogais + presidente
- Olival135 mil €
4 vogais + presidente
- São Pedro da Afurada69 mil €
2 vogais + presidente
- Lever69 mil €
2 vogais + presidente
- Crestuma69 mil €
2 vogais + presidente
- Seixezelo69 mil €
2 vogais + presidente
- Sermonde69 mil €
2 vogais + presidente
Lei n.º 11/96 e tabela de abonos de 2026.
Custo por eleitor, em cêntimos
Custo anual da estrutura política por eleitor inscrito, no cenário de todos os vogais em permanência.
- Mafamude747
247 954 € por ano
- Santa Marinha939
247 954 € por ano
- Canidelo995
247 954 € por ano
- Oliveira do Douro1 232
247 954 € por ano
- Pedroso936
156 501 € por ano
- Vilar de Andorinho1 035
156 501 € por ano
- Arcozelo1 169
156 501 € por ano
- Vilar do Paraíso1 307
156 501 € por ano
- Canelas1 310
156 501 € por ano
- São Félix da Marinha1 321
156 501 € por ano
- Gulpilhares1 548
156 501 € por ano
- Madalena1 378
135 160 € por ano
- Avintes1 383
135 160 € por ano
- Valadares1 410
135 160 € por ano
- Grijó1 412
135 160 € por ano
- Serzedo1 932
135 160 € por ano
- Perosinho2 366
135 160 € por ano
- Sandim2 583
135 160 € por ano
- Olival2 670
135 160 € por ano
- São Pedro da Afurada2 247
68 948 € por ano
- Lever2 812
68 948 € por ano
- Crestuma3 174
68 948 € por ano
- Seixezelo4 259
68 948 € por ano
- Sermonde6 189
68 948 € por ano
Cálculo próprio sobre a tabela de abonos de 2026 e o eleitorado de 2025.
E os técnicos?
A estrutura política é a parte visível — e a mais pequena. Uma junta tem também pessoal próprio: assistentes técnicos, administrativos, auxiliares e trabalhadores das obras e dos cemitérios. É esse pessoal que assegura o atendimento, a limpeza, as licenças e a manutenção, e costuma ser um dos maiores itens do orçamento de uma freguesia.
Não existe, porém, publicação oficial do número de trabalhadores por freguesia. A Direção-Geral das Autarquias Locais publica o «número de trabalhadores por município e serviço municipalizado» (série 2014-2023), mas não o desagrega por junta, e o Balanço Social da Administração Local não chega a esse nível. Cada junta tem o seu mapa de pessoal, publicado no respetivo site, mas não há uma base nacional.
O que se pode calcular é o custo unitário: por cada 1 000 € de salário base mensal, um trabalhador custa à junta 17 325 € por ano (14 pagamentos e 23,75% de contribuição para a Segurança Social), mais o subsídio de refeição de 6,15 € por dia. Uma junta com dez trabalhadores a 1 000 € brutos gasta, só neles, cerca de 173 250 € por ano.
As 24 juntas: estrutura e custo
| Freguesia | Vogais | Presidente (€/ano) | Estrutura (€/ano) | € por eleitor |
|---|---|---|---|---|
| Mafamude | 6 | 37 621 | 247 954 | 7,47 |
| Santa Marinha | 6 | 37 621 | 247 954 | 9,39 |
| Canidelo | 6 | 37 621 | 247 954 | 9,95 |
| Oliveira do Douro | 6 | 37 621 | 247 954 | 12,32 |
| Pedroso | 4 | 33 106 | 156 501 | 9,36 |
| Vilar de Andorinho | 4 | 33 106 | 156 501 | 10,35 |
| Arcozelo | 4 | 33 106 | 156 501 | 11,69 |
| Vilar do Paraíso | 4 | 33 106 | 156 501 | 13,07 |
| Canelas | 4 | 33 106 | 156 501 | 13,10 |
| São Félix da Marinha | 4 | 33 106 | 156 501 | 13,21 |
| Gulpilhares | 4 | 33 106 | 156 501 | 15,48 |
| Madalena | 4 | 28 592 | 135 160 | 13,78 |
| Avintes | 4 | 28 592 | 135 160 | 13,83 |
| Valadares | 4 | 28 592 | 135 160 | 14,10 |
| Grijó | 4 | 28 592 | 135 160 | 14,12 |
| Serzedo | 4 | 28 592 | 135 160 | 19,32 |
| Perosinho | 4 | 28 592 | 135 160 | 23,66 |
| Sandim | 4 | 28 592 | 135 160 | 25,83 |
| Olival | 4 | 28 592 | 135 160 | 26,70 |
| São Pedro da Afurada | 2 | 24 077 | 68 948 | 22,47 |
| Lever | 2 | 24 077 | 68 948 | 28,12 |
| Crestuma | 2 | 24 077 | 68 948 | 31,74 |
| Seixezelo | 2 | 24 077 | 68 948 | 42,59 |
| Sermonde | 2 | 24 077 | 68 948 | 61,89 |
Três formas de contar a mesma junta
| Nível | Quem está incluído | Custo anual | Por eleitor |
|---|---|---|---|
| 1. Presidente | só o presidente, em permanência | 731 342 | 2,73 |
| 2. + secretário e tesoureiro | presidente e os dois vogais com compensação de 80% | 838 406 | 3,13 |
| 3. Teto legal | presidente e todos os vogais em permanência | 3 513 340 | 13,11 |
Uma estrutura cinco vezes maior do que a câmara
O executivo municipal de Gaia — presidente e dez vereadores no limite legal — custa 636 269 € por ano, 2,37 € por eleitor. A estrutura política das 24 juntas, no teto, custa 3 513 340 € — 5,5 vezes mais, com 13,11 € por eleitor.
Mesmo no cenário mais contido (só presidentes), as juntas já custam 731 342 €, mais 15% do que a câmara. E a diferença por eleitor é a mais reveladora: 61,9 € em Sermonde contra 7,47 € em Mafamude, um fator de 8,3.
A razão é a mesma de sempre: o número de eleitos cresce em degraus e o eleitorado das freguesias pequenas não chega para diluir o custo.
O que está — e não está — nestes números. A composição das juntas segue a Lei n.º 169/99 (art. 23.º): dois vogais até 5 000 eleitores, quatro entre 5 000 e 20 000 e seis a partir de 20 000, sendo dois deles secretário e tesoureiro. A remuneração segue a Lei n.º 11/96 (arts. 5.º, 5.º-A, 7.º e 8.º) e a tabela de abonos de 2026: presidentes a 25%, 22%, 19% e 16% do vencimento do Presidente da República (8 550,10 €), com representação de 30%; vogais com a mesma base e representação de 20%; compensação de 80% para secretários e tesoureiros não permanentes e senhas de presença para os restantes. O anual usa 14 vencimentos e 12 mensalidades de representação.
O «teto legal» assume todos os vogais em regime de permanência — o que não acontece na maioria das juntas: muitas têm apenas o presidente a tempo inteiro e um ou dois vogais a meio tempo ou em não permanência. O nível 1 (só presidentes) é o único valor que corresponde a uma despesa certa; os níveis 2 e 3 são cenários.
Não estão incluídos: pessoal (técnicos, administrativos, auxiliares), senhas de presença dos membros da assembleia de freguesia (5% da compensação do presidente por sessão), subsídios de refeição, instalações, viaturas ou transferências do município. Os números dos trabalhadores por freguesia não são publicados pela DGAL, que só os desagrega por município.
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Temos os 3 259 registos de freguesias com presidentes, eleitorado, escalões e valores de abono. Podemos cruzar com o pessoal de cada junta.