O que custa uma junta de freguesia: presidentes, vogais e técnicos

Equipa Sabemos Studio19/10/20265 min de leituraAnálises

As juntas de freguesia não são só presidentes: cada uma tem entre 2 e 6 vogais, e dois deles são secretário e tesoureiro. Em Gaia, são 94 vogais e 24 presidentes. Se todos estivessem em permanência, a estrutura custaria 3 513 340 € por ano.

Este artigo conta as pessoas, compara os três níveis de custo e mostra o que falta saber sobre o pessoal das juntas.

As juntas de Gaia por dentro

presidentes24um por freguesia, eleitos em 2025
vogais942, 4 ou 6 por junta, conforme o eleitorado
só presidentes731 342 €vencimento e representação por ano
estrutura3 513 340 €teto legal, com todos os vogais em permanência
por eleitor13,11 €a câmara municipal custa 2,37 € por eleitor

Uma junta não é só o presidente

Cada uma das 24 juntas de freguesia de Gaia tem um presidente e entre 2 e 6 vogais, conforme o número de eleitores. Ao todo, são 94 vogais e 24 presidentes: 118 pessoas com mandato executivo, sem contar com os membros das assembleias de freguesia.

Se todos esses vogais estivessem em regime de permanência, a estrutura política das juntas custaria 3 513 340 € por ano — 13,11 € por eleitor, 5,5 vezes o custo do executivo municipal de Gaia (636 269 €).

É um teto legal, não a despesa real: a maioria das juntas só tem o presidente a tempo inteiro. Mas mostra a ordem de grandeza de uma estrutura que quase nunca é discutida.

Quantas pessoas tem uma junta

Escalão de eleitoresVogaisFreguesias em GaiaPessoas no executivo
20 mil ou mais6428
10 a 20 mil4735
5 a 10 mil4840
menos de 5 mil2515

O presidente: o único que é sempre remunerado

O presidente da junta tem vencimento fixado por lei: 25% do vencimento do Presidente da República a partir de 20 mil eleitores, 22% entre 10 e 20 mil, 19% entre 5 e 10 mil e 16% abaixo disso. Acresce a despesa de representação, de 30% do vencimento, paga 12 vezes por ano.

Só os 24 presidentes custam 731 342 € por ano — 2,73 € por eleitor. O mais caro é o de Mafamude, com 37 621 €; o mais barato é o de Sermonde, com 24 077 €.

Os vogais: 35 mil euros por ano cada um

Um vogal em regime de permanência tem a mesma remuneração base do presidente da sua junta — é a linha «Presidentes (ou vogais por atribuição do Presidente)» da tabela oficial — e uma despesa de representação de 20%, em vez dos 30% do presidente (art. 5.º-A da Lei n.º 11/96).

Na prática, isso dá 35 056 € por ano por cada vogal em permanência nas freguesias com 20 mil ou mais eleitores, 30 849 € entre 10 e 20 mil e 22 435 € abaixo de 5 mil. Seis vogais em permanência numa junta grande custam 210 333 € por ano.

O cenário alternativo é o de não permanência: o secretário e o tesoureiro recebem uma compensação de 80% da do presidente (3 941 € por ano cada um nos concelhos grandes) e os restantes vogais recebem senhas de presença de 28,74 € por sessão, sem vencimento mensal.

Custo anual da estrutura política, por freguesia

Teto legal: presidente e todos os vogais em regime de permanência, com 14 vencimentos e 12 meses de representação.

  • Mafamude248 mil €

    6 vogais + presidente

  • Santa Marinha248 mil €

    6 vogais + presidente

  • Canidelo248 mil €

    6 vogais + presidente

  • Oliveira do Douro248 mil €

    6 vogais + presidente

  • Pedroso157 mil €

    4 vogais + presidente

  • Vilar de Andorinho157 mil €

    4 vogais + presidente

  • Arcozelo157 mil €

    4 vogais + presidente

  • Vilar do Paraíso157 mil €

    4 vogais + presidente

  • Canelas157 mil €

    4 vogais + presidente

  • São Félix da Marinha157 mil €

    4 vogais + presidente

  • Gulpilhares157 mil €

    4 vogais + presidente

  • Madalena135 mil €

    4 vogais + presidente

  • Avintes135 mil €

    4 vogais + presidente

  • Valadares135 mil €

    4 vogais + presidente

  • Grijó135 mil €

    4 vogais + presidente

  • Serzedo135 mil €

    4 vogais + presidente

  • Perosinho135 mil €

    4 vogais + presidente

  • Sandim135 mil €

    4 vogais + presidente

  • Olival135 mil €

    4 vogais + presidente

  • São Pedro da Afurada69 mil €

    2 vogais + presidente

  • Lever69 mil €

    2 vogais + presidente

  • Crestuma69 mil €

    2 vogais + presidente

  • Seixezelo69 mil €

    2 vogais + presidente

  • Sermonde69 mil €

    2 vogais + presidente

Lei n.º 11/96 e tabela de abonos de 2026.

Custo por eleitor, em cêntimos

Custo anual da estrutura política por eleitor inscrito, no cenário de todos os vogais em permanência.

  • Mafamude747

    247 954 € por ano

  • Santa Marinha939

    247 954 € por ano

  • Canidelo995

    247 954 € por ano

  • Oliveira do Douro1 232

    247 954 € por ano

  • Pedroso936

    156 501 € por ano

  • Vilar de Andorinho1 035

    156 501 € por ano

  • Arcozelo1 169

    156 501 € por ano

  • Vilar do Paraíso1 307

    156 501 € por ano

  • Canelas1 310

    156 501 € por ano

  • São Félix da Marinha1 321

    156 501 € por ano

  • Gulpilhares1 548

    156 501 € por ano

  • Madalena1 378

    135 160 € por ano

  • Avintes1 383

    135 160 € por ano

  • Valadares1 410

    135 160 € por ano

  • Grijó1 412

    135 160 € por ano

  • Serzedo1 932

    135 160 € por ano

  • Perosinho2 366

    135 160 € por ano

  • Sandim2 583

    135 160 € por ano

  • Olival2 670

    135 160 € por ano

  • São Pedro da Afurada2 247

    68 948 € por ano

  • Lever2 812

    68 948 € por ano

  • Crestuma3 174

    68 948 € por ano

  • Seixezelo4 259

    68 948 € por ano

  • Sermonde6 189

    68 948 € por ano

Cálculo próprio sobre a tabela de abonos de 2026 e o eleitorado de 2025.

E os técnicos?

A estrutura política é a parte visível — e a mais pequena. Uma junta tem também pessoal próprio: assistentes técnicos, administrativos, auxiliares e trabalhadores das obras e dos cemitérios. É esse pessoal que assegura o atendimento, a limpeza, as licenças e a manutenção, e costuma ser um dos maiores itens do orçamento de uma freguesia.

Não existe, porém, publicação oficial do número de trabalhadores por freguesia. A Direção-Geral das Autarquias Locais publica o «número de trabalhadores por município e serviço municipalizado» (série 2014-2023), mas não o desagrega por junta, e o Balanço Social da Administração Local não chega a esse nível. Cada junta tem o seu mapa de pessoal, publicado no respetivo site, mas não há uma base nacional.

O que se pode calcular é o custo unitário: por cada 1 000 € de salário base mensal, um trabalhador custa à junta 17 325 € por ano (14 pagamentos e 23,75% de contribuição para a Segurança Social), mais o subsídio de refeição de 6,15 € por dia. Uma junta com dez trabalhadores a 1 000 € brutos gasta, só neles, cerca de 173 250 € por ano.

As 24 juntas: estrutura e custo

FreguesiaVogaisPresidente (€/ano)Estrutura (€/ano)€ por eleitor
Mafamude637 621247 9547,47
Santa Marinha637 621247 9549,39
Canidelo637 621247 9549,95
Oliveira do Douro637 621247 95412,32
Pedroso433 106156 5019,36
Vilar de Andorinho433 106156 50110,35
Arcozelo433 106156 50111,69
Vilar do Paraíso433 106156 50113,07
Canelas433 106156 50113,10
São Félix da Marinha433 106156 50113,21
Gulpilhares433 106156 50115,48
Madalena428 592135 16013,78
Avintes428 592135 16013,83
Valadares428 592135 16014,10
Grijó428 592135 16014,12
Serzedo428 592135 16019,32
Perosinho428 592135 16023,66
Sandim428 592135 16025,83
Olival428 592135 16026,70
São Pedro da Afurada224 07768 94822,47
Lever224 07768 94828,12
Crestuma224 07768 94831,74
Seixezelo224 07768 94842,59
Sermonde224 07768 94861,89

Três formas de contar a mesma junta

NívelQuem está incluídoCusto anualPor eleitor
1. Presidentesó o presidente, em permanência731 3422,73
2. + secretário e tesoureiropresidente e os dois vogais com compensação de 80%838 4063,13
3. Teto legalpresidente e todos os vogais em permanência3 513 34013,11

Uma estrutura cinco vezes maior do que a câmara

O executivo municipal de Gaia — presidente e dez vereadores no limite legal — custa 636 269 € por ano, 2,37 € por eleitor. A estrutura política das 24 juntas, no teto, custa 3 513 340 € — 5,5 vezes mais, com 13,11 € por eleitor.

Mesmo no cenário mais contido (só presidentes), as juntas já custam 731 342 €, mais 15% do que a câmara. E a diferença por eleitor é a mais reveladora: 61,9 € em Sermonde contra 7,47 € em Mafamude, um fator de 8,3.

A razão é a mesma de sempre: o número de eleitos cresce em degraus e o eleitorado das freguesias pequenas não chega para diluir o custo.

O que está — e não está — nestes números. A composição das juntas segue a Lei n.º 169/99 (art. 23.º): dois vogais até 5 000 eleitores, quatro entre 5 000 e 20 000 e seis a partir de 20 000, sendo dois deles secretário e tesoureiro. A remuneração segue a Lei n.º 11/96 (arts. 5.º, 5.º-A, 7.º e 8.º) e a tabela de abonos de 2026: presidentes a 25%, 22%, 19% e 16% do vencimento do Presidente da República (8 550,10 €), com representação de 30%; vogais com a mesma base e representação de 20%; compensação de 80% para secretários e tesoureiros não permanentes e senhas de presença para os restantes. O anual usa 14 vencimentos e 12 mensalidades de representação.

O «teto legal» assume todos os vogais em regime de permanência — o que não acontece na maioria das juntas: muitas têm apenas o presidente a tempo inteiro e um ou dois vogais a meio tempo ou em não permanência. O nível 1 (só presidentes) é o único valor que corresponde a uma despesa certa; os níveis 2 e 3 são cenários.

Não estão incluídos: pessoal (técnicos, administrativos, auxiliares), senhas de presença dos membros da assembleia de freguesia (5% da compensação do presidente por sessão), subsídios de refeição, instalações, viaturas ou transferências do município. Os números dos trabalhadores por freguesia não são publicados pela DGAL, que só os desagrega por município.

Quer a estrutura de todas as juntas do país?

Temos os 3 259 registos de freguesias com presidentes, eleitorado, escalões e valores de abono. Podemos cruzar com o pessoal de cada junta.