Os deputados e as empresas: 611 interesses, 29 participações e 71,5 milhões de capital declarado

Sabemos Studio22/10/20264 min de leituraAnálises
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Em 2026, 103 deputados com declaração indexada registaram 611 interesses: 237 cargos remunerados, 29 participações em empresas e 71,5 milhões de euros de capital declarado. As declarações dizem onde e se há remuneração — não dizem quanto.

O que está em causa

Todos os titulares de cargos políticos entregam declarações de rendimentos, património e registo de interesses à Entidade para a Transparência. É nesse registo que aparecem os cargos exercidos fora do Parlamento, as sociedades em que participam e os apoios ou benefícios recebidos.

O IQ OS indexa essas declarações: 12.372 titulares, 11.255 declarações e 6.117 com registo de interesses, numa base atualizada a 19 de outubro de 2026. Deste conjunto, separámos quem exerceu o mandato de deputado: 392 pessoas com declarações entre 2024 e 2026, num total de 1.881 interesses declarados.

Este artigo olha para o ano em curso — 103 titulares com declaração de 2026 indexada e 611 interesses — e para o que esses números mostram, e para o que não mostram.

Os números de 2026

deputados103com declaração de 2026 indexada
interesses611declarados por esses deputados
cargos remunerados237em 468 atividades declaradas
participações29em empresas, por 20 deputados
capital declarado71,5 M€soma do capital das participadas

Quem declara mais

A distribuição é muito desigual: 40 deputados declaram apenas atividades e cargos, 31 acrescentam apoios ou benefícios e 11 juntam participações em sociedades. No topo, há quem chegue a 29 interesses numa única declaração.

O campeão é Pedro Filipe Mota Delgado Simões Alves, com 29 registos, seguido de Fernando Eirão Queiroga (24). Logo atrás, quatro nomes empatados ou quase: Lia Ferreira e Miguel Pires da Costa de Matos, com 16 cada, e Brilhante Dias, Carlos Oliveira Pinto e Alberto Santos, com 15.

Deputados com mais interesses declarados (2026)

DeputadoInteresses
Pedro Delgado Simões Alves29
Fernando Eirão Queiroga24
Lia Cristóvão Ferreira16
Miguel Pires da Costa de Matos16
Eurico Brilhante Dias15
Carlos Guimarães Oliveira Pinto15
Alberto Fernando da Silva Santos15
Nuno Fazenda de Almeida14

As empresas: 20 deputados, 29 participações

Vinte deputados declaram participações em 29 sociedades (são 31 registos: a Revigrés aparece duas vezes, uma delas com gralha no nome). O capital social somado chega aos 71,5 milhões de euros, com uma mediana de 190 mil euros — a média é puxada por meia dúzia de casos.

O maior é a Metalúrgica Central de Águeda, com 19,5 milhões de euros de capital, seguida da Revigrés (18,75 milhões) e da Lidemar (15,9 milhões). Os setores dominantes são consultoria, mediação imobiliária, cerâmica, advocacia, engenharia e hotelaria.

Maiores capitais declarados

EmpresaCapitalSetor
Metalúrgica Central de Águeda19,5 M€Metalurgia
Revigrés18,75 M€Cerâmica
Lidemar15,9 M€—
Ambigold Invest7,5 M€—
José Dotti Com. Eq. Ag. Ind.2,49 M€Comércio
Inovolt1,88 M€Eletricidade

Onde são remunerados

Das 468 atividades profissionais e cargos declarados em 2026, 237 são remuneradas e 231 não. São 95 os deputados com pelo menos um cargo pago.

A maioria recebe do próprio Parlamento — 63 registos apontam para a Assembleia da República, o que é a forma de declarar o vencimento do mandato. Fora dela, os empregadores mais frequentes são a Universidade Católica Portuguesa (8), o Parlamento Europeu (3), a SIC (3), o Município de Cascais (2), a Presidência do Conselho de Ministros (2), a Universidade Lusófona (2), o Banco de Portugal (2) e a Media Capital (2).

Há ainda 38 serviços prestados declarados por 13 deputados e 62 apoios ou benefícios por 42.

As relações: quem se cruza com quem

A base permite cruzar nomes e NIF: há empresas com mais de um deputado ligado, como a Cachoeiras (NIF 510338755), com dois. Mas o cruzamento exige cuidado — a mesma empresa pode aparecer com grafias diferentes, e o NIF é o único campo que garante a ligação.

É também por isso que este artigo não faz o retrato de redes societárias: para isso seria preciso ligar cada participação às empresas do universo IQ OS e validar cada aresta. O grafo de transparência já existe (5.616 empresas e 31.947 arestas), mas os falsos positivos por homonímia continuam a ser o principal risco.

O que as declarações não dizem

Não dizem quanto. O campo de remuneração é binário — "Sim" ou "Não". Não há valores, salários ou rendimentos nas declarações indexadas: quem quiser saber quanto ganha um deputado por um cargo externo não encontra a resposta aqui.

Não cobrem todos. Os 103 titulares de 2026 são os que têm declaração com registo de interesses indexada; a base tem 191 titulares ligados à XVII legislatura. Quem não preenche a secção de interesses não aparece — e a ausência não significa ausência de interesses.

Têm ruído. A mesma empresa aparece com duas grafias, há percentagens de participação impossíveis (454%) e nomes de entidades escritos de formas diferentes ("Assembleia da Republica", "ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA"). São dados declarados, não validados por entidade independente.

Não têm partido. O campo político não existe nesta base, pelo que não é possível comparar partidos a partir destes dados.

Método: dados da Entidade para a Transparência indexados no IQ OS (base atualizada a 19/10/2026), consultados em 22/10/2026. Universo: declarações com registo de interesses de titulares com o cargo "Deputado" (entidades Assembleia da República e AR — XVII Legislatura); uma declaração por titular, a mais recente. Contagens por registo, não por pessoa. Os nomes são os que constam das declarações públicas. Análise descritiva, não é acusação nem recomendação.

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