Os deputados e as empresas: 611 interesses, 29 participações e 71,5 milhões de capital declarado
Partilhar
Em 2026, 103 deputados com declaração indexada registaram 611 interesses: 237 cargos remunerados, 29 participações em empresas e 71,5 milhões de euros de capital declarado. As declarações dizem onde e se há remuneração — não dizem quanto.
O que está em causa
Todos os titulares de cargos políticos entregam declarações de rendimentos, património e registo de interesses à Entidade para a Transparência. É nesse registo que aparecem os cargos exercidos fora do Parlamento, as sociedades em que participam e os apoios ou benefícios recebidos.
O IQ OS indexa essas declarações: 12.372 titulares, 11.255 declarações e 6.117 com registo de interesses, numa base atualizada a 19 de outubro de 2026. Deste conjunto, separámos quem exerceu o mandato de deputado: 392 pessoas com declarações entre 2024 e 2026, num total de 1.881 interesses declarados.
Este artigo olha para o ano em curso — 103 titulares com declaração de 2026 indexada e 611 interesses — e para o que esses números mostram, e para o que não mostram.
Os números de 2026
Quem declara mais
A distribuição é muito desigual: 40 deputados declaram apenas atividades e cargos, 31 acrescentam apoios ou benefícios e 11 juntam participações em sociedades. No topo, há quem chegue a 29 interesses numa única declaração.
O campeão é Pedro Filipe Mota Delgado Simões Alves, com 29 registos, seguido de Fernando Eirão Queiroga (24). Logo atrás, quatro nomes empatados ou quase: Lia Ferreira e Miguel Pires da Costa de Matos, com 16 cada, e Brilhante Dias, Carlos Oliveira Pinto e Alberto Santos, com 15.
Deputados com mais interesses declarados (2026)
| Deputado | Interesses |
|---|---|
| Pedro Delgado Simões Alves | 29 |
| Fernando Eirão Queiroga | 24 |
| Lia Cristóvão Ferreira | 16 |
| Miguel Pires da Costa de Matos | 16 |
| Eurico Brilhante Dias | 15 |
| Carlos Guimarães Oliveira Pinto | 15 |
| Alberto Fernando da Silva Santos | 15 |
| Nuno Fazenda de Almeida | 14 |
As empresas: 20 deputados, 29 participações
Vinte deputados declaram participações em 29 sociedades (são 31 registos: a Revigrés aparece duas vezes, uma delas com gralha no nome). O capital social somado chega aos 71,5 milhões de euros, com uma mediana de 190 mil euros — a média é puxada por meia dúzia de casos.
O maior é a Metalúrgica Central de Águeda, com 19,5 milhões de euros de capital, seguida da Revigrés (18,75 milhões) e da Lidemar (15,9 milhões). Os setores dominantes são consultoria, mediação imobiliária, cerâmica, advocacia, engenharia e hotelaria.
Maiores capitais declarados
| Empresa | Capital | Setor |
|---|---|---|
| Metalúrgica Central de Águeda | 19,5 M€ | Metalurgia |
| Revigrés | 18,75 M€ | Cerâmica |
| Lidemar | 15,9 M€ | — |
| Ambigold Invest | 7,5 M€ | — |
| José Dotti Com. Eq. Ag. Ind. | 2,49 M€ | Comércio |
| Inovolt | 1,88 M€ | Eletricidade |
Onde são remunerados
Das 468 atividades profissionais e cargos declarados em 2026, 237 são remuneradas e 231 não. São 95 os deputados com pelo menos um cargo pago.
A maioria recebe do próprio Parlamento — 63 registos apontam para a Assembleia da República, o que é a forma de declarar o vencimento do mandato. Fora dela, os empregadores mais frequentes são a Universidade Católica Portuguesa (8), o Parlamento Europeu (3), a SIC (3), o Município de Cascais (2), a Presidência do Conselho de Ministros (2), a Universidade Lusófona (2), o Banco de Portugal (2) e a Media Capital (2).
Há ainda 38 serviços prestados declarados por 13 deputados e 62 apoios ou benefícios por 42.
As relações: quem se cruza com quem
A base permite cruzar nomes e NIF: há empresas com mais de um deputado ligado, como a Cachoeiras (NIF 510338755), com dois. Mas o cruzamento exige cuidado — a mesma empresa pode aparecer com grafias diferentes, e o NIF é o único campo que garante a ligação.
É também por isso que este artigo não faz o retrato de redes societárias: para isso seria preciso ligar cada participação às empresas do universo IQ OS e validar cada aresta. O grafo de transparência já existe (5.616 empresas e 31.947 arestas), mas os falsos positivos por homonímia continuam a ser o principal risco.
O que as declarações não dizem
Não dizem quanto. O campo de remuneração é binário — "Sim" ou "Não". Não há valores, salários ou rendimentos nas declarações indexadas: quem quiser saber quanto ganha um deputado por um cargo externo não encontra a resposta aqui.
Não cobrem todos. Os 103 titulares de 2026 são os que têm declaração com registo de interesses indexada; a base tem 191 titulares ligados à XVII legislatura. Quem não preenche a secção de interesses não aparece — e a ausência não significa ausência de interesses.
Têm ruído. A mesma empresa aparece com duas grafias, há percentagens de participação impossíveis (454%) e nomes de entidades escritos de formas diferentes ("Assembleia da Republica", "ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA"). São dados declarados, não validados por entidade independente.
Não têm partido. O campo político não existe nesta base, pelo que não é possível comparar partidos a partir destes dados.
Método: dados da Entidade para a Transparência indexados no IQ OS (base atualizada a 19/10/2026), consultados em 22/10/2026. Universo: declarações com registo de interesses de titulares com o cargo "Deputado" (entidades Assembleia da República e AR — XVII Legislatura); uma declaração por titular, a mais recente. Contagens por registo, não por pessoa. Os nomes são os que constam das declarações públicas. Análise descritiva, não é acusação nem recomendação.
Fontes
Hashtags do dia
#Deputados · #AssembleiaDaRepublica · #Transparencia · #Empresas · #DadosAbertos · #Portugal
Nós sabemos e tu?
O IQ OS cruza notícias com contratos públicos, empresas e autarquias. Os dados que estão por trás das manchetes.