O silêncio do Conselho de Estado, os 632 empregos da Ecco e o Ormuz de Teerão

Sabemos Studio03/11/202611 min de leituraAnálises

Cinco horas de Conselho de Estado terminaram numa nota sobre coesão social que não menciona os protestos nem as cargas policiais. No mesmo dia, a Ecco anunciou o fecho da fábrica de Santa Maria da Feira — 632 postos de trabalho —, o Governo confirmou a assinatura da venda de 49,9% da TAP à Lufthansa e Teerão prometeu reabrir o Estreito de Ormuz em dois dias se Washington aceitar as suas condições.

Cinco horas de reunião, nenhuma palavra sobre os protestos

O Conselho de Estado reuniu-se esta segunda-feira durante cinco horas, entre as 15h00 e as 20h00, no Palácio de Belém, com um único tema: a coesão social. No fim, a Presidência da República divulgou uma nota curta a dar conta dos contributos dos conselheiros sobre desigualdade, coesão territorial e acesso a bens essenciais — habitação, educação e saúde — sem uma única referência aos protestos pela habitação nem à atuação da Polícia.

A reunião tinha sido convocada precisamente no contexto das manifestações que, desde 10 de outubro, ocupam o Rossio e a Praça de D. João I, no Porto, e que no fim de semana terminaram em cargas policiais nas duas cidades. O comunicado limita-se a registar que António José Seguro valorizou os contributos apresentados e reafirmou «a importância da coesão social para a confiança dos cidadãos nas instituições democráticas».

O contraste é o da notícia: o órgão de consulta do Presidente da República foi chamado a pronunciar-se sobre o assunto do momento e devolveu ao país um texto genérico sobre coesão social, deixando de fora o que estava na rua e o que se passou nas ruas.

Assembleia popular da acampada do Porto, na Praça de D. João I
Acampada do Porto, em assembleia popular na Praça de D. João I. Foto: Jornal de Notícias

No Porto, a acampada acusa polícias à paisana de identificar manifestantes

A Acampada do Porto denunciou esta noite a presença de polícias à paisana a identificar e a deter manifestantes à saída da Praça de D. João I, que depois seriam levados à esquadra para identificar pessoas por fotografias. O relato é do advogado Ricardo Salazar, que presta apoio jurídico ao movimento: «chegaram indicações à organização de que estavam a ser identificados, ou estava a ser pedida a identificação, e estavam a ser detidas pessoas à saída da Praça de D. João I e a serem levadas para a esquadra».

Segundo o mesmo advogado, na esquadra foram mostradas «fotografias para serem identificadas pessoas», e haveria relatos semelhantes em hospitais onde os manifestantes recebem tratamento. «A ser verdade, é algo bastante sério e grave», disse, acrescentando que, se se confirmar, «é um caminho que pode chegar a processos políticos de intenção e perseguições de pessoas, o que é algo que já não acontecia em Portugal desde o Estado Novo».

O contexto é o da madrugada de domingo, quando a PSP dispersou as acampadas do Rossio e da Praça de D. João I e retirou cerca de 100 tendas. A intervenção terminou em cargas policiais e arremesso de objetos, com mais de duas dezenas de feridos entre manifestantes e polícias e sete detidos no Porto. Os manifestantes exigem a reversão da nova lei do arrendamento, o fim das demolições e dos despejos sem alternativa habitacional, um travão à compra de casas por fundos imobiliários, mais habitação pública e tetos de renda «verdadeiramente acessíveis».

Pinto Luz: «não estamos a legislar para quem se manifesta»

No Parlamento, na audição sobre o Orçamento do Estado para 2027 das áreas que tutela, o ministro das Infraestruturas e da Habitação respondeu ao Chega sobre os protestos do fim de semana com uma frase que resume a posição do Governo: «Não estamos a legislar para quem se manifesta nas ruas, é para aquela maioria silenciosa que também sofre» com a habitação.

Miguel Pinto Luz disse olhar para as manifestações «com enorme preocupação» e para quem se manifesta «com um absoluto sentido de Estado», garantiu que este é o «maior investimento de sempre em habitação» e recusou que a nova lei das rendas, ainda não em vigor, seja uma «via verde» para os despejos. A meio da audição, virou-se para o PS: «este Partido Socialista faz mal à democracia» quando «coloca os seus interesses pessoais à frente dos interesses do país».

A sessão ficou ainda marcada por uma troca azeda entre PS e Chega, depois de um aparte sobre o deputado bloquista Fabian Figueiredo, que desafiou o Chega a fazer um teste de drogas e levou o presidente da comissão, Rui Afonso, a suspender os trabalhos por minutos.

TAP: os 49,9% da Lufthansa são assinados esta tarde por 1.201 milhões

A venda de 49,9% da TAP à Lufthansa é formalizada esta terça-feira à tarde, num hangar do campus da companhia junto ao Aeroporto Humberto Delgado, com o primeiro-ministro, os ministros das Finanças e das Infraestruturas e o presidente executivo do grupo alemão, Carsten Spohr. O negócio vale 1.201 milhões de euros para o Estado e bateu por 163 milhões a oferta da Air France-KLM; 5% ficam destinados preferencialmente aos trabalhadores.

A assinatura fecha as condições financeiras e as garantias, mas não a operação: falta a luz verde dos reguladores, com a Comissão Europeia a fazer uma análise rota a rota. A expectativa do grupo alemão é que Bruxelas conclua a avaliação durante o primeiro semestre de 2028, e a integração dos negócios levará mais 12 a 18 meses. Os «remédios» que forem exigidos serão assumidos pela Lufthansa, embora o contrato lhe permita cancelar a compra se as exigências de Bruxelas puserem em causa o racional económico da operação. Até lá, a gestão da TAP continua independente.

A Ecco fecha na Feira e leva 632 postos de trabalho

A unidade portuguesa da dinamarquesa Ecco, em Santa Maria da Feira, vai fechar e deixar 632 pessoas no desemprego. O anúncio foi feito aos trabalhadores dos 22 departamentos da fábrica numa reunião esta segunda-feira de manhã, já com a produção suspensa.

O fecho será progressivo: a secção de amostras funciona mais duas semanas e depois só alguns operários serão chamados para agilizar o esvaziamento, que deverá estar concluído «no primeiro trimestre de 2027», mesmo que o edifício só seja vendido mais tarde. Quem já foi dispensado fica em casa sem perda de salário até receber a documentação para o subsídio de desemprego. Como indemnização, cada trabalhador recebe um salário por cada ano de serviço — acima do que a lei exige, reconhece o Sindicato Nacional do Calçado, Malas e Afins, cuja presidente, Fernanda Moreira, confirmou o calendário.

A administração da Ecco Portugal não revelou o volume de negócios de 2025 e justificou o encerramento «total e definitivo» com uma «reestruturação mais ampla da estrutura produtiva global da Ecco», admitindo que a decisão é «particularmente difícil» pelo impacto nos trabalhadores, nas famílias e na comunidade local.

Fábrica da Ecco em Santa Maria da Feira
Unidade da Ecco em Santa Maria da Feira, que fecha de forma progressiva até ao primeiro trimestre de 2027. Foto: Observador

Teerão promete reabrir Ormuz em dois dias — se Washington aceitar

O Irão garantiu esta segunda-feira que pode pôr em prática, em dois dias, um plano para reabrir o Estreito de Ormuz e iniciar negociações mais profundas sobre o fim da guerra — mas só se os Estados Unidos aceitarem as suas condições. «Se as exigências legítimas do Irão forem aceites e cumpridas, existe a possibilidade de que todo o plano seja posto em prática num prazo de dois dias», disse o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Esmail Baghaei, em conferência de imprensa em Teerão. «A decisão está com os Estados Unidos.»

A lista iraniana é longa: fim do bloqueio aos portos e navios do país, fim do conflito em todas as frentes — incluindo no Líbano —, descongelamento de ativos em países terceiros, reconhecimento do controlo de Ormuz pelo Irão e por Omã e suspensão das sanções ao petróleo. O movimento diplomático é real: o vice-presidente norte-americano, JD Vance, enviou na semana passada uma carta ao secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, Mohsen Rezaei, a propor retomar as negociações, e Teerão enviou uma delegação a Doha no fim de semana, com o Qatar como facilitador.

Ao mesmo tempo, a Organização Britânica de Operações Marítimas Comerciais continua a classificar como ataques os incidentes no estreito, e Donald Trump ameaçou no domingo, num comício no Iowa e antes das eleições intercalares desta terça-feira, lançar novos ataques contra o Irão. Segundo a imprensa norte-americana, discutiu com Benjamin Netanyahu a possibilidade de retomar os bombardeamentos.

Estreito de Ormuz
Estreito de Ormuz, por onde passa parte do petróleo mundial. Foto: AFP via Getty Images

Israel: Lieberman escolhe Eisenkot e tira a iniciativa a Netanyahu

A dois dias de o Presidente israelita, Isaac Herzog, começar as consultas com os partidos, Avigdor Lieberman anunciou o apoio ao líder da oposição, Gadi Eisenkot, para formar Governo. É um passo decisivo: os sete deputados do Yisrael Beitenu reforçam a coligação que o Yashar!, de Eisenkot, está a preparar e aumentam a possibilidade de ser o líder da oposição o primeiro a receber o mandato de Herzog.

Eisenkot foi a segunda força mais votada nas legislativas de 27 de outubro, com 21 lugares no Knesset, menos seis do que o Likud, de Benjamin Netanyahu. Lieberman, antigo ministro da Defesa e dos Negócios Estrangeiros em governos de Netanyahu, foi explícito: não tem qualquer intenção de integrar uma coligação com o atual primeiro-ministro.

No mesmo dia, a Lista Conjunta e o Raam, as principais forças árabes de Israel, reuniram-se em Nazaré para coordenar posições, com um objetivo declarado pelo líder do Taal, Ahmad Tibi: derrubar o Governo de Netanyahu, Ben-Gvir e Smotrich e substituí-lo por um «governo de mudança». Cerca de 80% dos palestinianos com cidadania israelita votaram, uma afluência sem precedentes.

A dívida desce a 88,4% do PIB e a prestação da casa bate recorde

A dívida pública caiu para 88,4% do PIB no final do terceiro trimestre, menos 4,2 pontos percentuais do que no trimestre anterior (92,6%), segundo o Banco de Portugal. Na óptica de Maastricht, a dívida diminuiu 700 milhões de euros, para 284,9 mil milhões. A descida refletiu sobretudo a redução dos empréstimos, com o reembolso calendarizado de 2 mil milhões ao Mecanismo Europeu de Estabilidade Financeira, compensada pelo aumento das responsabilidades em depósitos (+800 milhões, com os certificados de aforro) e dos títulos de dívida (+600 milhões). Deduzidos os depósitos das administrações públicas, a dívida caiu 3,5 mil milhões, para 257 mil milhões de euros.

No crédito à habitação, o retrato é o inverso: a prestação média mensal do stock de empréstimos para habitação própria permanente atingiu 450 euros em setembro, o valor mais alto desde o início da série, em 2018, e mais 9% em termos homólogos. Subiu pelo 13.º mês consecutivo: mais quatro euros do que em agosto e mais 32 euros do que no final de 2025. A taxa de juro média das novas operações voltou a subir, para 3,05% (2,86% em setembro de 2025), com 86% dos novos empréstimos contratados a taxa mista (2,92%); a variável ficou nos 3,30%. Na área do euro, a média das novas operações é de 3,62% e Portugal passou a ter a quinta taxa mais baixa, atrás de Malta, Bulgária, Croácia e Espanha.

O crédito à habitação em dois meses

IndicadorAgosto 2026Setembro 2026
Prestação média mensal (€)446450
Juro médio, novas operações (%)3,013,05
Juro médio, novos contratos (%)—3,07
Juro médio, contratos renegociados (%)—3,05

O dia em números

empregos na Ecco632Fábrica de Santa Maria da Feira, 22 departamentos, fecho progressivo até ao 1.º trimestre de 2027
Conselho de Estado5 horasReunião em Belém sobre coesão social, sem referência aos protestos na nota final
dívida pública88,4%Do PIB no 3.º trimestre, menos 4,2 p.p. do que no trimestre anterior
dívida de Maastricht284,9 mil M€Menos 700 milhões de euros em setembro, com o reembolso de 2 mil milhões ao MEEF
prestação da casa450 €Recorde da série do BdP desde 2018; mais 9% do que em setembro de 2025
juro das novas operações3,05%Crédito à habitação; era 2,86% um ano antes
venda da TAP1 201 M€49,9% à Lufthansa, 163 milhões acima da oferta da Air France-KLM
Eisenkot no Knesset21 lugaresYashar! foi a segunda força; o Likud de Netanyahu elegeu 25
Se as exigências legítimas do Irão forem aceites e cumpridas, existe a possibilidade de que todo o plano seja posto em prática num prazo de dois dias, a segurança no estreito de Ormuz seja restabelecida e o processo de negociações tenha início.
— Esmail Baghaei, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão

O prazo de «dois dias» para Ormuz é uma condição anunciada por Teerão, não um compromisso de Washington, e os incidentes no estreito continuam a ser classificados como ataques pela UKMTO. A identificação de manifestantes por polícias à paisana é o relato da Acampada do Porto, através do seu advogado; o JN não recolhe, no texto consultado, reação da PSP. A Ecco não divulgou o volume de negócios de 2025.

Miguel Pinto Luz numa audição parlamentar
Miguel Pinto Luz na comissão de orçamento e finanças, na audição sobre o Orçamento do Estado para 2027. Foto: Renascença
Carsten Spohr, presidente executivo do grupo Lufthansa
Carsten Spohr, CEO da Lufthansa, que assina esta tarde a compra de 49,9% da TAP. Foto: Ricardo Castelo/ECO

Ver em vídeo: Israel sem maioria

O impasse depois das legislativas de 27 de outubro e as contas para formar Governo.

Hashtags do dia

#Habitação · #Ecco · #TAP · #Ormuz · #Israel · #DívidaPública · #Atualidade · #Portugal

Nós sabemos e tu?

O IQ OS cruza notícias com contratos públicos, empresas e autarquias. Os dados que estão por trás das manchetes.