Frigoríficos a 50 graus: o ciberataque que chegou a sete lojas em Portugal
Partilhar
Sete lojas do Intermarché foram atingidas por um ataque aos sistemas de refrigeração. É a vaga europeia que já passou por França, Bélgica, Países Baixos, Suécia, Irlanda, Luxemburgo e Estónia — e que a PJ e o CNCS estão a investigar.
O ataque não desligou caixas nem roubou dados de clientes: mandou os frigoríficos aquecer. Em sete lojas do Intermarché em Portugal, os sistemas de refrigeração foram manipulados remotamente, num incidente que a Polícia Judiciária e o Centro Nacional de Cibersegurança estão a investigar.
O caso português é a ponta de uma vaga que já passou por França, Bélgica, Países Baixos, Suécia, Irlanda, Luxemburgo e Estónia. Em alguns equipamentos, as temperaturas chegaram aos 50 graus. Nenhum grupo reivindicou os ataques e não houve, até agora, pedido de resgate.
O essencial
O que aconteceu em Portugal
O Grupo Mosqueteiros confirmou que sete lojas foram afetadas por ocorrências ligadas a um ataque dirigido a um prestador de serviços externo responsável pela gestão dos sistemas de refrigeração. A empresa garante que a cadeia de abastecimento não foi afetada e que estão asseguradas as condições de higiene e segurança alimentares.
A PJ disse ao Notícias ao Minuto que está a avaliar o caso em conjunto com o CNCS; o centro nacional confirmou que acompanha o incidente. O ataque foi detetado na segunda-feira, 2 de novembro, e a notícia foi atualizada na manhã de hoje.
A vaga europeia começou em França
O modus operandi repete-se: os atacantes conseguem ativar remotamente o degelo forçado das instalações frigoríficas. O resultado é comida perdida, prateleiras vazias e lojas a recorrer a camiões frigoríficos para salvar stock.
Na Bélgica, o Delhaize confirmou cerca de 40 unidades afetadas e o Carrefour Bélgica 15 lojas; houve também alterações na Spar e em talhos de Antuérpia. Nos Países Baixos, pelo menos 17 empresas foram atingidas — sobretudo talhos e pequenas lojas de bairro, segundo a Danfoss, que tinha alertado os clientes em meados de outubro para desligarem os sistemas da internet. «A maioria das lojas tomou medidas nessa altura, mas um pequeno número não o fez e está agora a sofrer as consequências», disse um porta-voz. Em França, os primeiros casos foram identificados em outubro, com lojas Leclerc e coopérativas U afetadas.
Quem está por trás — e o que se sabe
Nada, para já. Nenhum grupo reivindicou os ataques e não há pedidos de resgate conhecidos. Rafe Pilling, da Sophos, aponta duas explicações plausíveis: uma operação estatal destinada a demonstrar capacidade ou a enviar uma mensagem, ou a ação de um pirata isolado com motivações pessoais. Grupos ligados à Rússia ou à China surgem como suspeitos possíveis, mas sem qualquer atribuição confirmada.
A União Europeia condenou os incidentes e classificou-os como «uma tentativa deliberada de perturbar a nossa cadeia de abastecimento alimentar e minar a confiança dos consumidores».
Porque é que um frigorífico está na internet
A vulnerabilidade não está no frio: está na ligação. Os sistemas de gestão de refrigeração comercial estão muitas vezes online para permitir monitorização, manutenção e alteração de parâmetros à distância. Sem proteção adequada, são uma porta de entrada.
Na Suécia, a Coop revelou que alguns frigoríficos estavam ligados por rede móvel 4G, o que aumentava a exposição; a ICA indicou usar tecnologia da dinamarquesa Danfoss, o mesmo equipamento associado aos problemas em França. O fenómeno não se limita a frigoríficos: fornos, máquinas de lavar e sistemas de aquecimento com ligação à internet têm o mesmo tipo de risco.
Ver em vídeo: o ataque explicado
Vídeos sobre as notícias deste dia, no YouTube e no TikTok.
O que circulou nas redes sociais
O caso explodiu primeiro nas redes e só depois nos jornais. Os vídeos de prateleiras vazias e de termómetros de frigorífico acima dos 30 graus circularam no TikTok e no X antes de qualquer confirmação oficial — alguns deles de lojas em França, outros sem localização verificável.
O Notícias ao Minuto publicou o alerta na sua página de Facebook ainda antes da confirmação do Grupo Mosqueteiros; no TikTok, criadores portugueses e espanhóis somaram visualizações com explicações de «guerra híbrida» e números sobre lojas afetadas que não estão confirmados por nenhuma autoridade. É o padrão habitual: o conteúdo credível e o exagerado viajam juntos, e a distinção só se faz depois.
Ver em vídeo: a vaga europeia
Vídeos sobre as notícias deste dia, no YouTube e no TikTok.
É a segunda vez este outono — e a terceira este ano
Portugal já teve, em 2026, um ataque que paralisou serviços de uma câmara (Ovar, em outubro) e a fuga de dados do SIRP, o sistema de informações da República, divulgada a 8 de outubro. A estes juntam-se os casos da AMA em 2024 e da CIM Leiria em setembro.
A diferença deste episódio é o alvo: não é uma base de dados, é equipamento físico com impacto imediato na cadeia alimentar. É mais difícil de proteger com firewalls e mais fácil de notar nas prateleiras — o que faz dele um alvo ideal para quem quer visibilidade, não lucro.
Rigor: os factos sobre Portugal vêm da RTP, Notícias ao Minuto, Executive Digest e Euronews; os números da Bélgica, Países Baixos e França são os divulgados pelas empresas e pela imprensa, não por autoridades. Não há atribuição confirmada dos ataques nem prova de envolvimento estatal — o texto diz isso explicitamente. As imagens identificadas como AFP, Euronews e frame de vídeo pertencem aos respetivos órgãos.
Fontes
- Sete lojas do Intermarché atingidas por ciberataque em Portugal
- Hackers atacam frigoríficos e Portugal é afetado. Supermercados em risco?
- Ataque informático afeta sete lojas Intermarché. PJ e CNCS investigam
- Quem está a atacar os frigoríficos dos supermercados europeus e porquê?
- Supermercados belgas sofrem ciberataque a frigoríficos e congeladores
- Ciberataque atinge sete supermercados Intermarché em Portugal
Hashtags do dia
#Ciberataque · #Intermarché · #Cibersegurança · #Frigoríficos · #Europa · #Portugal
Nós sabemos e tu?
O IQ OS cruza notícias com contratos públicos, empresas e autarquias. Os dados que estão por trás das manchetes.