O Bund voltou aos 3,48%: o valor mais alto desde 2009

Sabemos Studio21/10/20264 min de leituraAnálises
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A taxa alemã a 10 anos fechou Setembro nos 3,48%, o valor mais alto desde Junho de 2009. São mais 77 pontos base do que há um ano, num mês em que o BCE mantém a facilidade de depósito nos 2,50%. O que mede este número, porque subiu em 2026 e como chega a Portugal.

O número

Em Setembro de 2026, a taxa de rendibilidade média das obrigações do Tesouro alemãs a 10 anos foi de 3,48%. É o valor mais alto desde Junho de 2009 (3,55%) — mais 77 pontos base do que em Setembro do ano passado.

No mesmo mês, o Banco Central Europeu manteve a facilidade de depósito nos 2,50%. Ou seja: o juro a dez anos da Alemanha negocia quase um ponto percentual acima do piso que o BCE paga por depósitos. Durante anos foi o contrário.

Este artigo lê a série do Banco de Portugal (BPstat, série 12560098) e responde a três perguntas: o que é este número, o que mudou em 2026 e porque é que ele chega a Portugal.

O retrato em quatro números

taxa alemã a 10 anos3,48%média de Setembro de 2026
em 12 meses+77 pbde 2,71% para 3,48%
desde o mínimo+411 pbAgosto de 2019: −0,63%
facilidade de depósito do BCE2,50%outubro de 2026

O que é o Bund — e porque serve de referência

O Bund é a dívida soberana alemã. Com a melhor notação da área do euro e o mercado mais profundo, a sua taxa a 10 anos funciona como o benchmark sem risco da moeda única: é o preço a que tudo o resto se compara. Quando se diz que o spread português está «x pontos acima do Bund», é esta série que está no denominador.

A série do BPstat é uma média mensal de cotações diárias, para uma obrigação com prazo residual de 10 anos. Não é um valor de fecho nem o preço de uma emissão concreta. Isso importa para ler oscilações pequenas: 3,48% é a média de Setembro, não o nível de um dia.

Nas médias anuais a subida é igualmente clara: 1,19% em 2022, 2,45% em 2023, 2,34% em 2024, 2,64% em 2025 e 3,04% nos primeiros nove meses de 2026. O gráfico abaixo arredonda a uma casa decimal; os valores exactos são estes.

A taxa alemã a 10 anos, média anual (%)

  • 20221,2 %

    fim da era negativa

  • 20232,5 %
  • 20242,3 %

    recuo ligeiro

  • 20252,6 %
  • 20263,0 %

    média de Janeiro a Setembro

2026, mês a mês

MêsTaxa médiaVariação vs mês anterior
Janeiro2,85%—
Fevereiro2,77%−8 pb
Março2,93%+16 pb
Abril3,02%+9 pb
Maio3,05%+3 pb
Junho2,97%−8 pb
Julho3,09%+12 pb
Agosto3,20%+11 pb
Setembro3,48%+28 pb

O que mudou em 2026

A subida não foi linear. De Janeiro a Junho, a taxa andou entre 2,77% e 3,05% — variações mensais entre três e dezasseis pontos base. A partir de Julho, mudou de regime: três subidas consecutivas e um salto de 28 pontos base em Setembro, o maior movimento mensal do ano.

Não há uma causa única, e a série mede o resultado, não o motivo. Há três pressões que costumam andar juntas: o prémio de prazo, porque o mercado voltou a exigir compensação por emprestar a dez anos depois de anos a aceitar yields negativas; a oferta de dívida, com mais emissão alemã e europeia para financiar defesa e infraestrutura; e a inflação, que não regressa ao zero e deixa o BCE sem pressa para cortar.

Vale a pena fixar a distância percorrida: em Agosto de 2019, a mesma taxa estava em −0,63%. Hoje está 411 pontos base acima.

Porque é que isto chega a Portugal

Portugal não emite ao preço do Bund — emite ao preço do Bund mais um spread. Se a referência sobe e o spread se mantém, o custo de financiamento do Estado sobe na mesma proporção. Com o Bund nos 3,48%, o mesmo spread de há um ano compra menos alívio.

Para as famílias o canal é diferente: os créditos à habitação a taxa variável seguem a Euribor, não o Bund. Mas ambos respondem ao mesmo conjunto de condições — e um prémio de prazo mais alto na Alemanha tende a endurecer as condições de financiamento em toda a área do euro, com atraso e com intensidade variável.

O que esta série não permite dizer é quanto custa hoje a dívida portuguesa. Para isso é preciso a curva das OT e o spread — dados que não estão nesta série, e que trataremos à parte.

Três coisas para vigiar

3 de Novembro. É a data prevista para a publicação do valor de Outubro. Um único mês não faz tendência, mas dois acima de 3,5% mudariam a leitura do ano.

O BCE. Com a facilidade de depósito nos 2,50%, o mercado está a pedir quase um ponto de prémio para dez anos. Se o BCE cortar, a distância aumenta — e é aí que os Estados se financiam.

O spread. É a variável que separa o preço alemão do custo português. Bund a subir com spread estável é dinheiro mais caro para todos; Bund a subir com spread a apertar é o oposto.

Notas de leitura: série do Banco de Portugal (BPstat, 12560098), média mensal de cotações diárias, com última observação em 30/09/2026. Valores em percentagem, arredondados a duas casas; as variações em pontos base são calculadas sobre os valores originais. A série começa em Janeiro de 2000 (5,52%) e o mínimo histórico é −0,63%, em Agosto de 2019. As causas apontadas são pressões geralmente aceites na leitura de mercados, não relações estimadas nesta série. Texto descritivo: não é recomendação de investimento nem previsão de taxas.

Ver os dados, não só a opinião

A série completa está no BPstat, do Banco de Portugal. No IQ OS cruzamos este tipo de indicador com contratos públicos, empresas e autarquias.