O Bund voltou aos 3,48%: o valor mais alto desde 2009
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A taxa alemã a 10 anos fechou Setembro nos 3,48%, o valor mais alto desde Junho de 2009. São mais 77 pontos base do que há um ano, num mês em que o BCE mantém a facilidade de depósito nos 2,50%. O que mede este número, porque subiu em 2026 e como chega a Portugal.
O número
Em Setembro de 2026, a taxa de rendibilidade média das obrigações do Tesouro alemãs a 10 anos foi de 3,48%. É o valor mais alto desde Junho de 2009 (3,55%) — mais 77 pontos base do que em Setembro do ano passado.
No mesmo mês, o Banco Central Europeu manteve a facilidade de depósito nos 2,50%. Ou seja: o juro a dez anos da Alemanha negocia quase um ponto percentual acima do piso que o BCE paga por depósitos. Durante anos foi o contrário.
Este artigo lê a série do Banco de Portugal (BPstat, série 12560098) e responde a três perguntas: o que é este número, o que mudou em 2026 e porque é que ele chega a Portugal.
O retrato em quatro números
O que é o Bund — e porque serve de referência
O Bund é a dívida soberana alemã. Com a melhor notação da área do euro e o mercado mais profundo, a sua taxa a 10 anos funciona como o benchmark sem risco da moeda única: é o preço a que tudo o resto se compara. Quando se diz que o spread português está «x pontos acima do Bund», é esta série que está no denominador.
A série do BPstat é uma média mensal de cotações diárias, para uma obrigação com prazo residual de 10 anos. Não é um valor de fecho nem o preço de uma emissão concreta. Isso importa para ler oscilações pequenas: 3,48% é a média de Setembro, não o nível de um dia.
Nas médias anuais a subida é igualmente clara: 1,19% em 2022, 2,45% em 2023, 2,34% em 2024, 2,64% em 2025 e 3,04% nos primeiros nove meses de 2026. O gráfico abaixo arredonda a uma casa decimal; os valores exactos são estes.
A taxa alemã a 10 anos, média anual (%)
- 20221,2 %
fim da era negativa
- 20232,5 %
- 20242,3 %
recuo ligeiro
- 20252,6 %
- 20263,0 %
média de Janeiro a Setembro
2026, mês a mês
| Mês | Taxa média | Variação vs mês anterior |
|---|---|---|
| Janeiro | 2,85% | — |
| Fevereiro | 2,77% | −8 pb |
| Março | 2,93% | +16 pb |
| Abril | 3,02% | +9 pb |
| Maio | 3,05% | +3 pb |
| Junho | 2,97% | −8 pb |
| Julho | 3,09% | +12 pb |
| Agosto | 3,20% | +11 pb |
| Setembro | 3,48% | +28 pb |
O que mudou em 2026
A subida não foi linear. De Janeiro a Junho, a taxa andou entre 2,77% e 3,05% — variações mensais entre três e dezasseis pontos base. A partir de Julho, mudou de regime: três subidas consecutivas e um salto de 28 pontos base em Setembro, o maior movimento mensal do ano.
Não há uma causa única, e a série mede o resultado, não o motivo. Há três pressões que costumam andar juntas: o prémio de prazo, porque o mercado voltou a exigir compensação por emprestar a dez anos depois de anos a aceitar yields negativas; a oferta de dívida, com mais emissão alemã e europeia para financiar defesa e infraestrutura; e a inflação, que não regressa ao zero e deixa o BCE sem pressa para cortar.
Vale a pena fixar a distância percorrida: em Agosto de 2019, a mesma taxa estava em −0,63%. Hoje está 411 pontos base acima.
Porque é que isto chega a Portugal
Portugal não emite ao preço do Bund — emite ao preço do Bund mais um spread. Se a referência sobe e o spread se mantém, o custo de financiamento do Estado sobe na mesma proporção. Com o Bund nos 3,48%, o mesmo spread de há um ano compra menos alívio.
Para as famílias o canal é diferente: os créditos à habitação a taxa variável seguem a Euribor, não o Bund. Mas ambos respondem ao mesmo conjunto de condições — e um prémio de prazo mais alto na Alemanha tende a endurecer as condições de financiamento em toda a área do euro, com atraso e com intensidade variável.
O que esta série não permite dizer é quanto custa hoje a dívida portuguesa. Para isso é preciso a curva das OT e o spread — dados que não estão nesta série, e que trataremos à parte.
Três coisas para vigiar
3 de Novembro. É a data prevista para a publicação do valor de Outubro. Um único mês não faz tendência, mas dois acima de 3,5% mudariam a leitura do ano.
O BCE. Com a facilidade de depósito nos 2,50%, o mercado está a pedir quase um ponto de prémio para dez anos. Se o BCE cortar, a distância aumenta — e é aí que os Estados se financiam.
O spread. É a variável que separa o preço alemão do custo português. Bund a subir com spread estável é dinheiro mais caro para todos; Bund a subir com spread a apertar é o oposto.
Notas de leitura: série do Banco de Portugal (BPstat, 12560098), média mensal de cotações diárias, com última observação em 30/09/2026. Valores em percentagem, arredondados a duas casas; as variações em pontos base são calculadas sobre os valores originais. A série começa em Janeiro de 2000 (5,52%) e o mínimo histórico é −0,63%, em Agosto de 2019. As causas apontadas são pressões geralmente aceites na leitura de mercados, não relações estimadas nesta série. Texto descritivo: não é recomendação de investimento nem previsão de taxas.
Ver os dados, não só a opinião
A série completa está no BPstat, do Banco de Portugal. No IQ OS cruzamos este tipo de indicador com contratos públicos, empresas e autarquias.