Boavista: 150 milhões de dívida, estádio vendido e a atividade a terminar a 31 de outubro

Sabemos Studio23/10/20265 min de leituraAnálises
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O plano de recuperação foi rejeitado pelos credores a 7 de outubro e a administradora da insolvência comunicou aos funcionários que a liquidação avança: o clube e as 31 modalidades cessam atividade a 31 de outubro. O Estádio do Bessa já foi vendido por 33 milhões de euros e há uma proposta do Catar para comprar os créditos.

O que está a acontecer

O Boavista Futebol Clube está em liquidação. A 7 de outubro, a assembleia de credores no Tribunal de Comércio de Vila Nova de Gaia rejeitou o plano de recuperação apresentado pela direção e decidiu que o processo prossegue com a liquidação do ativo.

Poucos dias depois, a administradora da insolvência, Clarisse Barros, comunicou aos funcionários que a liquidação avança. Contas feitas, o clube e todas as suas modalidades cessam atividade a 31 de outubro.

A direção, liderada por Rui Garrido Pereira, diz que a decisão ainda pode ser revertida e que está a negociar um novo plano com os credores hipotecários até ao fim do mês. É a última janela.

Os números do processo

dívida do clube150 M€valor avançado no processo de insolvência
venda do Bessa33 M€estádio e complexo, aprovada pelos credores
modalidades31do clube, com cerca de 1.500 atletas
fim da atividade31 outdata comunicada aos funcionários

Clube e SAD: dois processos, dois desfechos

É preciso separar as duas entidades. A Boavista SAD, sociedade que geria o futebol profissional, declarou insolvência a 10 de julho de 2025, depois de o Processo Especial de Revitalização não ter sido homologado e de o clube ter falhado a inscrição nas competições profissionais a 30 de junho. A SAD entrou em liquidação.

O clube — fundado em 1903, com nove troféus nacionais e campeão em 2000/01 — seguiu um processo próprio, com dívidas superiores a 150 milhões de euros. A liquidação foi aprovada, a atividade chegou a ser encerrada em julho de 2026 por falta de depósito para as despesas correntes e o tribunal autorizou a reabertura em agosto, com condições. Durou três meses.

Cronologia do colapso

DataO que aconteceu
mai. 2025Despromoção à II Liga, 18.º e último, com 24 pontos
30 jun. 2025Falha a inscrição nas competições profissionais
10 jul. 2025SAD declara insolvência
set. 2025Liquidação do clube aprovada com dívida superior a 150 M€
jul. 2026Administradora encerra a atividade por falta de depósito
ago. 2026Tribunal autoriza reabertura, com condições
7 out. 2026Credores rejeitam o plano e aprovam a venda do Bessa
16 out. 2026JTA apresenta proposta não vinculativa para comprar créditos
31 out. 2026Fim da atividade do clube e das modalidades

O Bessa já tem dono por 33 milhões

Na mesma assembleia de 7 de outubro, os credores aprovaram a venda do Estádio do Bessa e do complexo desportivo envolvente por 33 milhões de euros à Frozenspark, sociedade do grupo imobiliário Confrasilvas, com sede em Lisboa. O valor ficou acima do preço mínimo fixado de 32,9 milhões, num processo conduzido pela Leilosoc.

A venda do estádio resolve uma parte da massa insolvente, mas não salva o clube: o dinheiro vai para os credores, não para a continuidade da atividade. É a diferença entre pagar a dívida e manter a porta aberta.

Estádio do Bessa com as cadeiras axadrezadas
Estádio do Bessa, vendido por 33 milhões de euros. Foto: Golo FM

A proposta do Catar

A 16 de outubro, a JTA International Investment Holding, do Catar, apresentou uma proposta inicial e não vinculativa para adquirir os créditos dos principais credores do Boavista — ou seja, para ficar no lugar deles no processo.

A empresa diz que o interesse é de longo prazo e não imobiliário, e que ainda não assumiu qualquer compromisso: a proposta serve para analisar a dimensão das necessidades financeiras, os riscos jurídicos e as condições de uma eventual intervenção. A imprensa desportiva falou numa negociação entre 30 e 35 milhões de euros.

Comprar créditos não é comprar o clube: dá poder negocial no processo, não devolve automaticamente a atividade nem a licença desportiva.

Quem decide e quem contesta

A administradora respondeu publicamente ao presidente do clube, que questionou a sua atuação: não é "aceitável" desviar para a gestora judicial uma responsabilidade que pertence a quem exerce funções de direção, disse Clarisse Barros, vincando que as suas funções decorrem da lei e das decisões do tribunal e dos credores.

Do lado dos sócios, a associação Panteras Negras pediu a convocação urgente de uma Assembleia Geral, com a destituição dos órgãos sociais na ordem de trabalhos. Cerca de 200 sócios participaram na sessão de esclarecimento promovida pelos principais credores, na quarta-feira anterior.

O que acaba a 31 de outubro

Não é só o futebol sénior. O clube tem 31 modalidades e cerca de 1.500 atletas — do hóquei em patins ao atletismo, do basquetebol ao xadrez. A liquidação do ativo implica o fim dessa estrutura, dos contratos de trabalho e da utilização do complexo do Bessa pelo clube.

Desportivamente, o percurso recente já era de queda livre: 11 épocas consecutivas na I Liga terminaram em maio de 2025 com o 18.º lugar e 24 pontos; a inscrição falhou um mês depois; a equipa caiu para a Liga 3 e depois para os distritais da Associação de Futebol do Porto.

O que ainda pode mudar

Há três portas, todas estreitas. A primeira é o novo plano de recuperação que a direção prometeu apresentar aos credores hipotecários até 31 de outubro. A segunda é a proposta da JTA, se passar de intenção a compromisso vinculativo e for aceite pelos credores. A terceira é uma decisão do tribunal que suspenda ou reverta a liquidação, com garantias financeiras que até agora não apareceram.

Sem uma destas três, a 1 de novembro o Boavista existe como história e como massa insolvente — não como clube em atividade.

Método: reconstrução do processo a partir de notícias publicadas entre 7 e 22 de outubro de 2026 (Maisfutebol, Sol, RTP, Observador, Jornal Económico, Golo FM, Notícias ao Minuto), com as fontes abaixo. Os valores são os divulgados por essas peças; a proposta da JTA é não vinculativa e o montante de 30 a 35 milhões é o avançado pela imprensa desportiva, não confirmado pela empresa. Datas de 2025 confirmadas na RTP e no Observador. Texto descritivo, sem comentário sobre responsabilidades individuais.

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