Tendas no Rossio, casas 18,4% mais caras e bloqueio na Cisjordânia
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A crise da habitação voltou a encher o Rossio de tendas, no dia em que o ministro das Finanças defendeu no Parlamento que “foi praticamente tudo feito” e o INE mostrou casas 18,4% mais caras e menos 9% de vendas. Israel decretou bloqueio total à Cisjordânia e Rússia e Ucrânia aceitaram uma trégua localizada em Oleshky.
O dia em sete pontos
A habitação voltou a mandar no dia português: a Acampada de Lisboa decidiu voltar a montar tendas no Rossio este sábado, horas depois de a Gebalis ter vindo explicar o despejo de Marvila, e o ministro das Finanças foi ao Parlamento defender que “foi praticamente tudo feito” nesta área.
- Habitação: marcha às 15h00 do Marquês de Pombal ao Rossio e novo acampamento às 19h00.
- OE2027: o Governo fala em 26 mil casas em construção e 59 mil até ao final da década; o PS aponta menos 700 milhões para a oferta habitacional.
- Marvila: a Gebalis garante que a mulher despejada nunca residiu na casa nem foi titular do contrato.
- Parlamento: o Chega propõe ouvir mais de 50 pessoas na comissão de inquérito a Luís Neves.
- Cisjordânia: Netanyahu decreta bloqueio total depois de um ataque que feriu cinco israelitas, a três dias das legislativas.
- Ucrânia: trégua localizada em Oleshky a partir de 27 de outubro e reunião trilateral em Abu Dhabi em novembro.
- Economia: as casas subiram 18,4% em ano e venderam-se menos 9%; o teto dos Certificados de Aforro sobe 60%, para 16 mil milhões de euros.
Quatro números do dia
Habitação: as tendas voltam ao Rossio este sábado
Em assembleia popular no Bairro do Condado, cerca de uma centena de manifestantes aprovou por unanimidade, de braço no ar, um novo acampamento na Praça do Rossio para as 19h00 deste sábado. A jornada começa mais cedo: a manifestação “Não temos casa, montamos tendas!” parte da rotunda do Marquês de Pombal às 15h00 e desce até ao Rossio. Ficou também decidida uma “conchinha massiva” no aeroporto de Lisboa, em data ainda por marcar, e a assembleia terminou com um minuto de silêncio pelo direito à habitação.
As exigências mantêm-se: reversão da lei do arrendamento, fim das demolições e dos despejos sem alternativa habitacional, travão à compra de casas por fundos imobiliários, mais habitação pública, tetos às rendas e recuperação de imóveis devolutos. Os protestos começaram no Porto a 10 de outubro e alargaram-se a Lisboa e a outras cidades depois da aprovação parlamentar da nova lei do arrendamento, que está agora em discussão na especialidade.
O historial recente é de confronto. A 15 de outubro, o movimento acampado no Porto denunciou uma carga policial durante a madrugada que provocou ferimentos em 39 participantes, dois deles em estado grave, e num polícia. Em Lisboa, as autoridades retiraram dezenas de tendas do Rossio ao início da manhã de terça-feira e detiveram 55 manifestantes, que serão presentes a juiz a 27 de outubro.
Marvila: a Gebalis responde com a versão contrária
A vigília marcada para as 18h00 de sexta-feira em Marvila, contra o despejo de uma jovem mãe viúva com dois filhos de 2 e 4 anos, obrigou a empresa municipal Gebalis a vir a público. O presidente do conselho de administração, Fernando Angleu, falou em “erro grosseiro” nas notícias sobre o caso e garantiu que a mulher “nunca integrou o agregado, nunca residiu na habitação, nunca fez prova desses factos”.
Segundo a Gebalis, quem foi impedido de aceder à casa foi o companheiro da arrendatária, um idoso, que denunciou a situação às autoridades; o fogo municipal estava atribuído à avó do falecido companheiro. A empresa diz que as duas providências cautelares intentadas pela mulher foram decididas a seu favor e que a requerente nunca foi titular de contrato de arrendamento municipal. A mulher está inscrita num programa de arrendamento e aguarda decisão; a Câmara de Lisboa recusou reverter o despejo, invocando 2 800 famílias à frente na lista.
OE2027: “praticamente tudo feito” e os 700 milhões em disputa
Na audição sobre a proposta de Orçamento do Estado para 2027, na Assembleia da República, Joaquim Miranda Sarmento foi confrontado pelo deputado do Chega Eduardo Teixeira com a entrevista que deu ao Expresso, onde afirmou que “o que podia ser feito foi praticamente tudo feito”. O ministro de Estado e das Finanças repetiu a frase, sublinhando o advérbio, e insistiu que resolver o problema exige tempo: “é um problema que demora tempo, porque construir casas demora tempo, colocá-las no mercado demora tempo”.
O Governo aponta três eixos: habitação pública, com mais de mil milhões de euros para passar das 16 mil casas financiadas pelo PRR para as 26 mil previstas e chegar às 59 mil até ao final da década; redução dos custos de construção, com o IVA da construção e reabilitação a descer temporariamente de 23% para 6%; e a via fiscal, com o IRS sobre as rendas a cair de 25% para 10% até 2 300 euros por mês, além da lei do arrendamento em discussão no Parlamento.
A oposição contestou os números. A deputada socialista Marina Gonçalves apontou uma redução de 700 milhões de euros no reforço da oferta habitacional no OE2027; a bloquista Patrícia Gonçalves contrapôs os 209 milhões para senhorios pagarem 10% de IRS em rendas até 2 300 euros e os 400 milhões para alargar a isenção de IMT a casas até 330 mil euros. O PS garantiu, no arranque do debate, que a proposta do Governo sairá da generalidade como entrou no que toca ao saldo orçamental.
Construir casas e colocá-las no mercado demora tempo. Fizemos um número de medidas significativo nestes dois anos e meio.
Parlamento: uma comissão de inquérito com mais de 50 nomes
O Chega entregou uma lista com mais de 50 pessoas para ouvir na comissão de inquérito aos mandatos de Luís Neves à frente da Polícia Judiciária, que o partido forçou. Entre os nomes estão o antigo primeiro-ministro António Costa e o seu antigo chefe de gabinete Vítor Escária, o juiz Carlos Alexandre, a atual ministra da Justiça, Rita Alarcão Júdice, e as antecessoras Francisca Van Dunem e Catarina Sarmento e Castro.
A lista inclui ainda o atual diretor nacional da PJ, Carlos Cabreiro, e o antigo diretor Almeida Rodrigues, dirigentes e antigos dirigentes da polícia, as jornalistas Sandra Felgueiras e Felícia Cabrita, sindicatos da PJ, o empresário da Construbarcelos — a empresa que fez obras na propriedade de Luís Neves —, o presidente da Câmara de Odemira e o coordenador da operação Pacoba. Em documentos, o partido quer o organograma da PJ, dados sobre nomeações e exonerações, e informação sobre os químicos apreendidos e os bens que terão sido usados pelo antigo diretor.
Os partidos têm até domingo para entregar os requerimentos de audição. PCP, Livre e Chega querem ouvir o ministro da Administração Interna, e o Livre quer também ouvir André Ventura. O Parlamento vai reservar uma sala para consulta de documentos com informação classificada.
Cisjordânia: bloqueio total a três dias das legislativas israelitas
Dois atacantes vestidos de preto, um deles armado com uma espingarda de assalto e o outro com uma pistola, abriram fogo sobre militares israelitas num posto de controlo no cruzamento da Judeia, perto de Hebron, no sul da Cisjordânia ocupada. Foram mortos pelas forças israelitas ao fim de uma troca de tiros de cerca de 20 minutos. Cinco israelitas na casa dos 20 anos ficaram feridos, dois deles em estado crítico, segundo o Magen David Adom.
Benjamin Netanyahu ordenou um “bloqueio imediato” de Hebron e pediu ao exército que preparasse um “bloqueio total” da Cisjordânia ainda na sexta-feira; as tropas iniciaram “operações antiterroristas”, incluindo nas casas de suspeitos, e isolaram a zona do ataque. O primeiro-ministro israelita falou num “ataque de grande escala” evitado e mandou cancelar os eventos de campanha do Likud. As eleições legislativas são na terça-feira, 27 de outubro.
O ataque não foi reivindicado de imediato; o Hamas classificou-o como uma “operação heroica” sem assumir a autoria. Netanyahu prometeu caçar os membros do movimento “em qualquer lugar e a qualquer momento”. O ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, defendeu o desmantelamento da Autoridade Palestiniana: “É lá que vai estalar a próxima guerra”.
Ucrânia: trégua em Oleshky e negociações trilaterais em Abu Dhabi
A Rússia e a Ucrânia confirmaram um cessar-fogo localizado em Oleshky, cidade do sul da Ucrânia ocupada desde fevereiro de 2022 e onde os residentes se queixam da falta quase total de alimentos, medicamentos, água potável, eletricidade e gás. O chefe do Estado-Maior russo, Valery Gerasimov, anunciou a suspensão dos ataques a partir das 04h00 de 27 de outubro; o acordo prevê um corredor humanitário para a saída de residentes e a entrada de ajuda. O Kremlin admite que a retirada demore vários dias.
A mediação foi da primeira-dama norte-americana, Melania Trump, que tinha anunciado a trégua para 29 de outubro e que, segundo a Casa Branca, foi intermediária exclusiva na definição de objetivos, calendário e condições. Moscovo e Kiev agradeceram também o envolvimento do Papa Leão XIV. A cidade está cercada por estradas minadas: em setembro, a Ucrânia conseguiu entregar cerca de quatro toneladas de alimentos por drones, insuficientes para a dimensão da crise.
No mesmo dia, Volodymyr Zelensky anunciou um entendimento para uma reunião trilateral com a Rússia e os Estados Unidos em Abu Dhabi, ao nível das equipas, na primeira quinzena de novembro, admitindo depois um encontro entre líderes: “As questões-chave só podem ser resolvidas a esse nível”. O presidente ucraniano disse ter falado com os enviados norte-americanos Jared Kushner e Steve Witkoff e contrariou Donald Trump sobre as comunicações: os limites de velocidade no Starlink e no Starshield continuam em vigor.
Economia: casas mais caras, mas vendem-se menos
No segundo trimestre de 2026 foram vendidas 37 854 habitações em Portugal, menos 9% do que no mesmo período do ano anterior, enquanto o preço mediano subiu para 2 445 euros por metro quadrado, mais 18,4% em termos homólogos. O ritmo abrandou ligeiramente — no primeiro trimestre a subida tinha sido de 19,8% —, mas os preços continuam a aumentar em todas as 26 sub-regiões analisadas pelo INE.
Os maiores aumentos registaram-se no Médio Tejo (+25,4%), no Oeste (+24%), na Lezíria do Tejo e nos Açores (+23,9% em ambos) e na Península de Setúbal (+22,2%). As zonas mais caras continuam a ser a Grande Lisboa, o Algarve, a Península de Setúbal, a Madeira e a Área Metropolitana do Porto. Lisboa lidera os municípios, com 5 299 euros por metro quadrado, seguida de Cascais (5 200) e Oeiras (4 704).
Em 10 dos 24 municípios analisados, os preços aceleraram face ao trimestre anterior: Loures somou 9,7 pontos percentuais e Matosinhos 9,5. No sentido oposto, Guimarães registou o maior abrandamento, de 13,4 pontos, e Lisboa e Porto também desaceleraram 8,9 e 5,4 pontos. Quem tem domicílio fiscal no estrangeiro pagou 47% mais por metro quadrado na Grande Lisboa e 37,5% mais na Área Metropolitana do Porto. O INE não avança explicações para a quebra das vendas.
Poupança: o teto dos certificados sobe 60%, para 16 mil milhões
Um despacho do ministro das Finanças publicado esta sexta-feira em Diário da República sobe de 10 mil milhões para 16 mil milhões de euros o limite de emissão dos Certificados de Aforro e do Tesouro. O Governo justifica a decisão com uma procura “significativamente acima do esperado”: nos primeiros nove meses do ano, os Certificados de Aforro somaram 5,2 mil milhões de euros de subscrições líquidas de resgates, segundo o Banco de Portugal.
O mesmo despacho redistribui os limites das outras linhas de financiamento do Estado. Com as famílias a financiarem mais dívida, o Governo reduziu o teto das Obrigações do Tesouro e dos Bilhetes do Tesouro e subiu o dos certificados especiais de dívida de curto prazo (CEDIC), à conta das disponibilidades financeiras de entidades do setor público administrativo.
Nos Certificados do Tesouro o movimento é o inverso: apesar de uma nova série lançada em julho, com remuneração mais atrativa, acumulam um saldo negativo de 1,4 mil milhões de euros até setembro, com mais resgates do que subscrições.
Limites de emissão de dívida em 2026 (milhões de euros)
| Instrumento | Antes | Agora | Variação |
|---|---|---|---|
| Certificados de Aforro e do Tesouro | 10 000 | 16 000 | +60% |
| Obrigações do Tesouro | 35 000 | 27 500 | -21,4% |
| Bilhetes do Tesouro | 18 000 | 15 000 | -16,7% |
| Certificados especiais de dívida de curto prazo (CEDIC) | 32 000 | 36 500 | +14,1% |
Telecomunicações: a Digi admite sair de Portugal
O diretor executivo do grupo Digi, Valentin Popoviciu, admitiu em conferência de imprensa em Lisboa que “um dos desfechos pode ser sairmos de Portugal”, se a operadora não tiver condições para concorrer. A empresa, que entrou no mercado português em 2024, emprega 1 900 pessoas no país e comprou a Nowo, pede à Anacom que reconsidere a decisão de renovar as licenças de espectro da Meo, da Nos e da Vodafone.
A Digi defende que os direitos que caducam em 2027 sejam atribuídos por leilão, com um limite por operador e um bloco reservado a quem tem menos espectro, e aponta como alternativa a atribuição do bloco de 2×5 MHz que está por atribuir na faixa dos 700 MHz. Argumenta que a prorrogação automática impede a participação em leilões competitivos. Para sustentar a posição, encomendou um estudo à Lisbon Economics, de Abel Mateus, segundo o qual uma saída forçada da Digi custaria até 3,5 mil milhões de euros aos consumidores em 15 anos.
Nota de método: este apanhado resume e cita reportagem de RTP, Observador, ECO, Renascença, CNN Portugal, Diário de Notícias e Público, com as ligações na lista de fontes. Os valores do INE e do Banco de Portugal são os divulgados por essas fontes. Não é análise financeira nem recomendação de investimento.
Fontes
- Manifestantes em Lisboa aprovam acampamento para este sábado
- “Erro grosseiro”. Presidente da Gebalis garante que jovem viúva despejada em Marvila não era titular do contrato
- Governo já “fez praticamente tudo” na habitação, diz Miranda Sarmento
- “Foi praticamente tudo feito”: Miranda Sarmento mantém posição sobre a habitação
- Chega quer ouvir António Costa e mais de 50 pessoas no inquérito
- Governo de Israel decreta bloqueio total à Cisjordânia
- Rússia e Ucrânia aceitam trégua mediada por Melania Trump para a cidade de Oleshky
- Ucrânia, Rússia e EUA reúnem-se no início de novembro em Abu Dhabi, diz Zelensky
- Casas ficam mais caras, mas vendem-se menos em Portugal
- Forte procura leva Governo a aumentar em 60% limite à emissão de certificados
- Digi admite sair de Portugal e pede à Anacom que repense decisão de renovar licenças
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